Política
Advogado de Cláudio Castro vê possível motivação política em nova operação da PF sobre o Rioprevidência
Rio de Janeiro — O advogado Carlo Luchione, que representa o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), afirmou nesta terça-feira (26) ver uma possível motivação política na nova operação da Polícia Federal que teve o ex-mandatário como alvo, no âmbito das investigações sobre aportes do Rioprevidência ligados ao Banco Master. É a segunda ação da PF envolvendo Castro em menos de 15 dias. A defesa diz ter sido surpreendida novamente e afirma que, até o momento, não teve acesso à decisão judicial que autorizou as buscas.
O que diz a defesa
- “Eu vejo isso tudo nesse momento aí que nós estamos passando de eleições. Eu vejo que é possível que seja”, declarou Luchione, ao avaliar a possibilidade de motivação política. Em seguida, ponderou: “Isso é uma opinião minha, não é uma opinião que eu possa hoje confirmar”.
- O advogado afirmou que tenta compreender qual seria a ligação atribuída a Castro com o Banco Master pela investigação. “O governador delega funções aos setores responsáveis pelas verificações, e nada disso pode ser feito sem o aval do Banco Central e dos procuradores. Nós vamos buscar entender em que ponto ele pode estar sendo envolvido ou qual seria a acusação das investigações”, disse.
- Segundo Luchione, os agentes apreenderam dois celulares do ex-governador — um antigo e outro adquirido após a operação anterior. “O Cláudio participou com serenidade, colaborou com as buscas e não houve qualquer intercorrência”, afirmou. Ele acrescentou que não houve apreensão de documentos nesta terça.
- A TV Globo apurou, entretanto, que a PF não deixou de apreender celulares nas duas operações e já conseguiu acessar o conteúdo dos aparelhos retidos no dia 15, apesar de Castro ter se recusado a fornecer as senhas — conduta que, segundo a emissora, se repetiu hoje.
A nova fase da investigação
- A 8ª fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, investiga crimes financeiros envolvendo o Banco Master e apura aportes de recursos públicos do Estado do Rio de Janeiro no conglomerado do banqueiro Daniel Vorcaro.
- De acordo com a investigação, houve aportes de R$ 3 bilhões do Rioprevidência ao grupo em diferentes ocasiões. Pelos dados de referência do próprio fundo, a folha de pagamento de aposentados e pensionistas (241.927 servidores, segundo dados de abril) custa R$ 2,1 bilhões por mês — e os R$ 3,7 bilhões aplicados no Master representam quase dois meses dessa folha.
- Ao todo, foram expedidos 10 mandados de busca e apreensão no Rio e no Distrito Federal por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Como foi a operação desta terça
- Um dos mandados foi cumprido na cobertura de Castro, na Península, condomínio de alto padrão na Barra da Tijuca. A equipe permaneceu cerca de três horas no local e deixou o prédio às 9h10, levando dois celulares.
- Esta foi a segunda vez, em menos de 15 dias, que a PF cumpriu mandados na residência do ex-governador. Em 15 de maio, a Operação Sem Refino realizou buscas em investigação sobre supostas fraudes fiscais na Refit (antiga Refinaria de Manguinhos).
O que está em jogo no Rioprevidência
- O Rioprevidência administra os benefícios de 235 mil aposentados e pensionistas do Estado do Rio. A dimensão financeira do fundo torna relevante qualquer operação de alocação de recursos — especialmente quando envolve conglomerados privados e, por consequência, risco às contas públicas e à previsibilidade de pagamentos a inativos e pensionistas.
- A PF apura se aportes ao Banco Master observaram critérios de governança, conformidade e segurança compatíveis com a natureza do fundo previdenciário.
Análise da Revista Oi
- O fato de o ex-governador ter sido alvo de duas operações em tão curto intervalo, às vésperas do calendário eleitoral, tende a alimentar a narrativa de interferência política mencionada pela defesa. Ao mesmo tempo, a execução de mandados autorizados pelo STF e o foco em operações financeiras de alto impacto sobre o Rioprevidência indicam a gravidade e o avanço da apuração.
- A ausência, até agora, de acesso da defesa à decisão judicial e o contraste entre a versão do advogado e a apuração de que a PF já acessou conteúdos de aparelhos obtidos anteriormente mostram que a disputa de versões seguirá intensa. A tendência é de que a análise técnica dos materiais apreendidos e a publicidade de decisões judiciais tragam maior clareza sobre a extensão do envolvimento atribuído a Castro — se houver — e sobre a regularidade ou não dos aportes do fundo.
Próximos passos
- A defesa de Cláudio Castro aguarda acesso à decisão que embasou as buscas e pretende esclarecer a suposta ligação do ex-governador com operações do Banco Master.
- A PF deve aprofundar a perícia nos celulares apreendidos e avançar na rastreabilidade dos aportes do Rioprevidência. A movimentação do caso no STF, sob relatoria do ministro André Mendonça, pode definir novos rumos da investigação.