Política
Política é o tema mais associado a fake news no Brasil, aponta pesquisa
A política segue no centro da desinformação no Brasil. Levantamento do Aláfia Lab, laboratório independente de pesquisa sobre internet, comunicação e sociedade, indica que 43% dos brasileiros dizem encontrar mais notícias falsas sobre política e eleições do que sobre qualquer outro tema. Saúde, economia e celebridades aparecem na sequência. O estudo, obtido em primeira mão pelo g1, reforça que a desinformação se consolidou como variável relevante do debate público, com impacto direto no clima eleitoral.
Principais achados
Segundo a pesquisa, a maioria dos brasileiros afirma saber reconhecer notícias falsas, ainda que com insegurança: 58% dizem identificar fake news “com dúvidas em alguns casos”, 29% afirmam fazê-lo “com facilidade” e 13% admitem não saber identificar desinformação. Para Vivian Peron, coordenadora de pesquisa do Aláfia Lab, a desinformação se tornou uma “arma política” e tem dado o tom das eleições.
O levantamento aponta que a percepção de fake news sobre política cresce com a idade e a escolaridade. Entre pessoas com 45 anos ou mais, 47% afirmam encontrar desinformação relacionada ao tema; entre jovens de 18 a 29 anos, o índice cai para 35%. Entre entrevistados com ensino superior, 50% relatam encontrar fake news sobre política e eleições; entre pessoas com ensino fundamental, o percentual é de 34%.
Diferenças por perfil ideológico
A pesquisa identifica diferenças marcantes no comportamento de eleitores de esquerda, direita e centro. Entre os que se declaram de esquerda, 39% dizem identificar fake news com facilidade, ante 30% entre os de direita. Pessoas de esquerda também afirmam recorrer mais a ferramentas de checagem: 24% dizem utilizar agências de fact-checking, contra 13% entre os de direita.
Apesar disso, eleitores de direita relatam encontrar mais desinformação sobre política e eleições. Nesse grupo, 55% dizem se deparar com fake news sobre o tema; entre os de esquerda, o índice é de 48%. Na prática, os dados sugerem que diferentes ecossistemas informacionais e hábitos de consumo moldam a exposição e a capacidade declarada de triagem de conteúdo enganoso.
Comportamento diante de conteúdo suspeito
Quando se deparam com uma informação suspeita, quase metade dos brasileiros prefere não agir: 47% afirmam ignorar o conteúdo. Outros 32% dizem buscar verificar se a informação é verdadeira, e apenas 10% relatam denunciar o caso às plataformas. Na avaliação da reportagem, a combinação entre alta exposição à desinformação e baixa taxa de denúncia cria um vácuo de responsabilização que favorece a circulação de boatos e teorias enganosas.
Percepção de danos
A percepção sobre o impacto das fake news também varia conforme o posicionamento político. Entre eleitores de esquerda, 69% acreditam que a desinformação causa alto dano ao desacreditar instituições; entre os de direita, o percentual é de 46%. A diferença reforça o caráter polarizado do debate público e ajuda a explicar por que medidas de enfrentamento ao problema frequentemente esbarram em disputas narrativas.
Inteligência artificial em foco
O estudo analisou ainda o uso de ferramentas de inteligência artificial. O ChatGPT aparece como o chatbot mais popular: 42% afirmam já ter usado a ferramenta, enquanto 25% dizem utilizar o Gemini. O uso do ChatGPT é maior entre eleitores de direita (53%) do que entre os de esquerda (39%). Já o uso diário de IA, de forma mais ampla, é mais frequente entre entrevistados de esquerda (39%) do que entre os de direita (26%).
As finalidades variam por posição ideológica: pessoas de direita usam mais IA para criar imagens, vídeos e aprender; eleitores de esquerda recorrem mais às ferramentas para checar fake news. Na opinião da Revista Oi, esse recorte sugere que a IA já é peça central no ecossistema informacional — tanto para produção de conteúdo quanto para verificação — e tende a ganhar relevância nas próximas disputas eleitorais.
Metodologia e cautelas
A pesquisa do Aláfia Lab ouviu 1.512 entrevistados em todo o país. As perguntas foram de autodeclaração, refletindo a percepção dos próprios participantes sobre seus hábitos e capacidades. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A própria equipe do estudo ressalta que levantamentos de opinião dessa natureza levantam hipóteses a serem investigadas por pesquisas mais específicas — uma advertência metodológica importante para evitar generalizações apressadas.
Contexto e implicações
Os resultados se somam a um cenário em que política e eleições continuam altamente suscetíveis a campanhas de desinformação coordenadas. Na avaliação desta reportagem, três frentes emergem como prioritárias: educação midiática para ampliar a checagem ativa pelo público; ampliação de parcerias entre plataformas e agências de verificação; e transparência no uso de ferramentas de IA, que já influenciam a produção e a circulação de conteúdo digital. A baixa disposição para denunciar publicações suspeitas e o predomínio da política como alvo da desinformação indicam que o problema está menos na ausência de percepção e mais na transformação dessa percepção em ação concreta.
Encerramento
Ao evidenciar que quase metade dos brasileiros associa a desinformação sobretudo à política, o estudo do Aláfia Lab oferece um retrato atual de um desafio que transcende ciclos eleitorais. A diferença de comportamentos e percepções entre campos ideológicos, somada ao avanço da IA, aponta para um ambiente informacional mais complexo. Se a desinformação é “arma política”, como define a pesquisadora Vivian Peron, seu desarme exigirá respostas coordenadas, sustentadas por dados e voltadas a fortalecer a confiança pública — antes que o próximo ciclo eleitoral amplifique ainda mais suas consequências.