Política
Representante dos EUA é convocada a dar explicações ao governo brasileiro sobre pedido para que delegado da PF deixe EUA
Revista Oi
Brasília — O Itamaraty convocou nesta terça-feira (21) a encarregada de Negócios interina da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Kimberly Kelly, para prestar esclarecimentos sobre o pedido do governo de Donald Trump para que o delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA (ICE), deixe o país. A reunião, confirmada por fontes da diplomacia brasileira, ocorre em meio à escalada de tensão após a detenção, em abril, do ex-deputado Alexandre Ramagem na Flórida e à acusação, feita por autoridades americanas, de tentativa de contornar pedidos formais de extradição com fins de “perseguições políticas”.
O que motivou a convocação
- Na segunda-feira (20), o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo americano anunciou que solicitou a saída de Marcelo Ivo de Carvalho dos Estados Unidos.
- O delegado da PF estava lotado em Miami desde março de 2023, em missão oficial junto ao ICE, com atribuições de identificação e prisão de foragidos da Justiça brasileira em território americano. Em março de 2025, sua permanência foi prorrogada até agosto deste ano.
- Em publicação nas redes, o governo dos EUA, sem citar nomes, afirmou que uma autoridade brasileira tentou “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas” no Brasil.
O encontro no Itamaraty
Segundo relatos obtidos pela GloboNews, a reunião no Ministério das Relações Exteriores durou cerca de uma hora. Kimberly Kelly foi recebida por Christiano Figueiroa, diretor do Departamento de América do Norte do MRE. O Itamaraty buscou detalhes sobre a fundamentação do pedido americano e os impactos práticos sobre a cooperação policial bilateral.
Reações do governo brasileiro
- Em viagem à Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo “irá entender o que aconteceu para decidir como reagir” e mencionou a possibilidade de aplicar o princípio da reciprocidade, segundo o qual um país responde a medidas de outro com ação equivalente.
- O chanceler Mauro Vieira destacou que Marcelo Ivo de Carvalho trabalhava formalmente em conjunto com autoridades americanas em Miami e que “todos sabiam” dessa função, sinalizando desconforto com a decisão de Washington.
O caso Ramagem no pano de fundo
- Alexandre Ramagem foi detido pelo ICE em 13 de abril, em Orlando, por questões migratórias, e liberado dois dias depois. Ao sair, divulgou vídeo agradecendo à cúpula do governo Trump pela soltura e disse que a liberação foi administrativa, sem procedimento judicial ou fiança.
- A movimentação dos EUA contra o delegado brasileiro ocorre após esse episódio e no contexto da acusação pública de tentativa de burlar procedimentos formais de cooperação jurídica — tema sensível na relação bilateral.
Quem é Marcelo Ivo de Carvalho — e quem o substitui
- Delegado da PF, Marcelo Ivo de Carvalho ocupa desde 2023 a função de oficial de ligação em Miami, dedicada ao intercâmbio com o ICE.
- Antes mesmo do anúncio americano, a PF já havia nomeado a delegada Tatiana Alves Torres para substituí-lo como oficial de ligação junto ao ICE. A designação foi publicada no Diário Oficial da União em 17 de março. Delegada desde 2002, formada em Direito pela UFMG, Tatiana tem especializações em Ciências Penais e Segurança Pública e histórico de atuação em crimes ambientais, financeiros, crime organizado e migração, além de passagens por cursos internacionais (National Defense University, em 2022, e Interpol, em 2008).
Contexto: o que é o ICE e o princípio da reciprocidade
- O ICE é a agência federal do Departamento de Segurança Interna dos EUA encarregada de fazer cumprir a legislação migratória e conduzir investigações criminais em âmbito transnacional. Atua por meio de duas grandes frentes: Investigação de Segurança Interna (HSI) e Operações de Fiscalização e Remoção (ERO). Em cooperações bilaterais, liaisons de polícias estrangeiras, como a PF, costumam trabalhar junto a suas unidades para localizar e deter foragidos.
- O princípio da reciprocidade é prática tradicional da diplomacia: diante de um ato considerado hostil ou injustificado, o país afetado pode adotar medida equivalente — por exemplo, restringir prerrogativas de diplomatas ou ajustar postos de cooperação. A adoção desse mecanismo, contudo, costuma ser calibrada para evitar prejuízos a áreas sensíveis, como a colaboração policial e judiciária.
O que está em jogo
- Cooperação policial: O afastamento de um oficial de ligação pode afetar, no curto prazo, a coordenação cotidiana de operações contra foragidos e organizações criminosas transnacionais. A nomeação prévia da substituta tende a mitigar disrupções operacionais.
- Sinal político: A convocação da encarregada de Negócios é um gesto diplomático clássico de descontentamento. Ao pedir explicações públicas e ventilar a reciprocidade, Brasília indica que enxerga o episódio não como um ajuste técnico, mas como um ruído político na parceria.
- Disputa de narrativas: Enquanto Washington fala em tentativa de burlar pedidos de extradição e “perseguições políticas”, o governo brasileiro sustenta que a atuação do delegado era conhecida e integrada às autoridades americanas. O desfecho dependerá da troca de notas e de eventuais esclarecimentos factuais sobre procedimentos seguidos no caso.
Análise da Revista Oi
A decisão de convocar a representante dos EUA é proporcional à gravidade da acusação pública feita por Washington e tenta resguardar a imagem da cooperação Brasil–EUA no pós-Ramagem. Na prática, a substituição já publicada no DOU reduz o impacto imediato sobre operações com o ICE, mas a retórica sobre “perseguição política” eleva o custo político para ambos os lados. Se prevalecer a reciprocidade, há risco de escalada diplomática que não interessa às áreas de segurança e justiça de nenhum dos países. O caminho mais racional, a esta altura, é a transparência sobre procedimentos adotados e a preservação dos canais técnicos, sem que o contencioso se torne um impasse de alto perfil.
Próximos passos
- O Itamaraty deve aguardar as respostas formais da Embaixada dos EUA e do Departamento de Estado.
- A PF, com a transição para Tatiana Alves Torres em Miami, tende a manter a cooperação operacional.
- Eventuais contramedidas brasileiras, caso adotadas, serão calibradas após a avaliação política e técnica das explicações americanas.