Política
Guerra dos mapas: a batalha política nos EUA que pode fortalecer ou enfraquecer Trump
Washington, 25 de abril de 2026
Os Estados Unidos vivem uma disputa acirrada pelo redesenho de mapas eleitorais estaduais a poucos meses das eleições legislativas de 3 de novembro. A onda de mudanças, impulsionada pelo presidente Donald Trump e respondida por democratas em estados-chave, mira a correlação de forças na Câmara dos Representantes — e, por consequência, a capacidade do governo de avançar sua agenda. Com maiorias republicanas apertadas nas duas Casas desde 2024, o “guerra dos mapas” promete influenciar diretamente se Trump sairá fortalecido ou enfraquecido do pleito.
Como chegamos aqui
- Nos EUA, o redesenho de distritos (redistricting) define os limites eleitorais e, historicamente, tem forte componente político. A Câmara tem 435 cadeiras fixas, distribuídas por distritos de população semelhante. Em regra, os mapas são refeitos após cada Censo decenal, mas mudanças no meio da década ocorrem e costumam ser controversas.
- A Suprema Corte decidiu, em 2019 (Rucho v. Common Cause), que disputas de gerrymandering partidário não são matéria para a Justiça federal, deixando o tema a cargo dos estados e do Congresso. Em 2023 (Moore v. Harper), a Corte rejeitou a tese de que legislaturas estaduais tenham poder absoluto sobre regras eleitorais, reafirmando o papel de cortes estaduais na revisão de mapas.
- Esse contexto jurídico explica por que a batalha atual se dá predominantemente nos estados — e por que muitas mudanças acabam validadas (ou travadas) em tribunais locais.
Texas abre a ofensiva
A estratégia republicana começou pelo Texas, segundo maior colégio da Câmara e reduto histórico do Partido Republicano. Em agosto de 2025, parlamentares estaduais aprovaram um novo mapa de distritos, sem alterar o número de cadeiras, mas redesenhando fronteiras para favorecer candidatos do partido. A proposta foi questionada judicialmente e, ao fim, validada pela Suprema Corte, o que consolidou sua vigência. A expectativa local é de ganho líquido aos republicanos ao reduzir áreas em que democratas vinham crescendo — sobretudo nos subúrbios de grandes centros.
A reação democrata na Califórnia
Três meses depois, a Califórnia redesenhou seu mapa com o objetivo de favorecer democratas. A mudança, também validada pela Suprema Corte, deve abrir caminho para que o partido recupere até cinco assentos hoje nas mãos de republicanos, compensando parte do avanço texano e acirrando o equilíbrio nacional.
Efeito dominó pelos estados
- Missouri (🔴): O governador republicano Mike Kehoe sancionou, em setembro, um novo mapa que elimina um distrito atualmente democrata, com potencial ganho de uma cadeira para o GOP. Opositores tentam levar o tema a referendo e acionaram a Justiça; por ora, o mapa vigora.
- Ohio (🔴): Regra estadual exigiu novo mapa para 2026. A comissão de redistritamento (cinco republicanos e dois democratas) aprovou por unanimidade um desenho que amplia as chances de o GOP tomar até duas cadeiras hoje democratas.
- Carolina do Norte (🔴): Em outubro, a maioria republicana aprovou mapa que pode garantir ao partido uma cadeira hoje controlada por democratas.
- Utah (🔵): Um juiz anulou mapa republicano por ilegalidade e determinou um desenho independente, que pode transferir uma das quatro cadeiras hoje republicanas para democratas.
- Virgínia (🔵): Eleitores aprovaram um novo mapa elaborado por democratas, com potencial de virar até quatro assentos. Dois dias depois, um juiz estadual anulou a votação; a disputa segue na Justiça.
- Flórida (🔴): O governador Ron DeSantis convocou sessão especial para discutir novo mapa que, se prosperar, pode render até cinco cadeiras extras aos republicanos. O plano enfrenta barreiras constitucionais estaduais que proíbem favorecimento partidário explícito.
Cenário eleitoral e o termômetro das pesquisas
- Center for Politics (Universidade da Virgínia): Projeções recentes indicam vantagem democrata na Câmara e manutenção, ainda que por margem estreita, da maioria republicana no Senado.
- 270toWin: Compilação de levantamentos aponta hoje vantagem democrata para retomar a Câmara.
- Race to the WH: Atribui 79% de chance de os democratas assumirem o controle da Câmara. No Senado, os republicanos têm 54% de probabilidade de manter a maioria — vantagem em queda nos últimos dias.
O fator ambiente: aprovação de Trump e economia
Pesquisas nacionais registram queda na aprovação do presidente, sob impacto da economia e da guerra contra o Irã, além de turbulências políticas recentes. Esse ambiente tende a pesar mais que ganhos marginais de engenharia distrital, sobretudo em distritos suburbanos competitivos — onde oscilações de humor do eleitorado frequentemente superam a vantagem cartográfica.
O que está em jogo para Trump
Opinião da Revista Oi, com base nos dados e nos mapas em vigor: a estratégia de Trump para redesenhar distritos gerou ganhos táticos relevantes (Texas, Missouri, Carolina do Norte e a possibilidade na Flórida), mas enfrenta contrapesos significativos (Califórnia, decisões judiciais em Utah e a disputa aberta na Virgínia). O placar parcial aponta para um efeito mais distributivo do que decisivo — com vitórias de terreno para ambos os lados. Somado ao momento negativo nas pesquisas, o risco para o presidente é que a “guerra dos mapas” não baste para segurar a Câmara. Se os democratas confirmarem a vantagem projetada, Trump verá sua agenda legislativa submetida a maior contenção. Se os republicanos preservarem ou ampliarem a maioria, haverá fôlego para avançar prioridades, ainda que com a mesma limitação evidenciada desde 2024: margens curtas expõem fraturas internas do partido e cobram negociações custosas em temas sensíveis.
Próximos passos
- As definições judiciais em Virgínia e o embate constitucional na Flórida serão decisivas para o saldo líquido dos dois partidos.
- Tentativas de referendo em Missouri e ajustes técnicos finais em comissões e cortes estaduais podem alterar o mapa até os prazos de impressão das cédulas.
- Com a jurisprudência federal limitando a interferência em gerrymandering partidário e preservando o controle dos estados, a batalha seguirá fragmentada, caso a caso, até novembro.
Em síntese
Em síntese, a disputa pelos mapas se tornou um braçado estratégico da eleição de meio de mandato de 2026. Ela pode atenuar perdas ou ampliar ganhos, mas dificilmente reescreverá sozinha o veredito das urnas. No fim, a economia, a aprovação presidencial e as campanhas nos distritos-chave devem ditar se a “guerra dos mapas” fortalecerá ou enfraquecerá Trump no Congresso.
Política
De Pelé a Neymar: como futebol e política no Brasil se cruzam nas Copas do Mundo
Brasília, 13 de junho de 2026
A poucos dias do início da Copa do Mundo de 2026, a relação entre futebol e política voltou ao centro do debate público no Brasil. Após a convocação de Neymar pelo técnico Carlo Ancelotti, o Partido Liberal (PL) publicou nas redes um vídeo produzido com inteligência artificial associando a imagem do jogador à do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República. “Flávio é Neymar e Neymar é Flávio”, diz a peça — rapidamente repercutida pelo parlamentar, que divulgou foto ao lado do atleta. Neymar não se manifestou. Em paralelo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ver chances do hexa, mas avaliou que o país vive uma fase sem “grandes ídolos” no futebol. O episódio reacende um enredo recorrente: a cada quatro anos, o campo e o palanque se encontram — independentemente do governante e de sua inclinação ideológica.
Antes da bola rolar: política em campo
- O uso da seleção como capital simbólico não é novo. “Hoje em dia os atletas são muito mais do que jogadores. Eles também são celebridades. E o Neymar é, sem dúvida, o grande atleta da geração brasileira”, observa Bruna Barenco, mestre e doutoranda em História (UFF). Em ambiente eleitoral, a visibilidade se amplifica: “No Brasil, todo ano [desde 1994] de Copa é ano de eleição. Então o futebol ganha uma importância muito maior. Tudo o que esses jogadores falam ou fazem acaba tendo impacto político também”, explica.
- Ao comentar a convocação, Lula disse na TV Brasil que o Brasil pode ser campeão, mas sem a figura de um grande ídolo como em outras épocas: “Lamentavelmente, a gente não está em uma fase de produção de tantos gênios… A seleção pode ser campeã do mundo, mas o problema é que nossa seleção não tem mais nenhum ídolo.”
- Em encontro com Donald Trump, em 7 de maio, Lula brincou sobre a entrada dos jogadores nos EUA durante a Copa: “Espero que você não anule o visto dos jogadores da seleção brasileira, porque a gente vai vir para ganhar a Copa do Mundo.”
1958 — Anos Dourados e o fim do “complexo de vira-lata”
Sob Juscelino Kubitschek, a vitória na Suécia, liderada por Pelé e Garrincha, dialogou com o otimismo desenvolvimentista — Brasília em construção, arquitetura de Niemeyer, Bossa Nova em ascensão. O governo celebrou a conquista com festa no Palácio do Catete e discursos que ecoavam a ideia de identidade nacional miscigenada. Para além do troféu, a campanha confrontou o “Complexo de Vira-lata”, expressão de Nelson Rodrigues após o trauma de 1950, reposicionando o Brasil no imaginário internacional.
1962 — Jango, diplomacia e a urgência do bicampeonato
A Copa do Chile consolidou a imagem do Brasil como potência futebolística em meio a um cenário político tenso — a última antes de um longo hiato sem presidente eleito diretamente. Com Pelé lesionado e Garrincha suspenso nas semifinais, a participação do camisa 7 na final virou questão de Estado. Tancredo Neves, então primeiro-ministro, foi acionado para interceder junto à Fifa e às autoridades chilenas. Garrincha acabou liberado, e o título ajudou a reforçar a ideia de um país já integrado “à dinâmica mundial de poder”, como pontua Bruna Barenco.
1970 — Ditadura, ufanismo e o poder das imagens
O regime militar transformou o futebol em vitrine. Emílio Garrastazu Médici frequentava estádios, associava-se a clubes e via na seleção um ativo de propaganda. A conquista no México, no auge do “Milagre Econômico”, foi trilha do ufanismo ao som de “Pra Frente, Brasil”. A engrenagem política também se fez sentir no banco de reservas: João Saldanha caiu a 72 dias da estreia, após responder com ironia à suposta pressão de Médici para convocar Dadá Maravilha — “Nem Saldanha escala o ministério, nem Médici escala a seleção.” Zagallo assumiu e levou o time ao tricampeonato. Para o historiador Carlos Fico (UFRJ), o sucesso de hinos patrióticos não significou adesão automática ao regime, mas ilustrou a tentativa de construir uma “unidade nacional” pela bola.
1994 — Plano Real, luto e pragmatismo campeão
Em meio à redemocratização recente, ao impeachment de Collor e ao lançamento do Plano Real, a seleção de Romário, Bebeto, Dunga e Taffarel foi eficiente, ainda que pouco exuberante, num ano marcado pela hiperinflação e pela comoção com a morte de Ayrton Senna. “O futebol começava a tentar se afastar da política”, lembra Barenco. O tetracampeonato ajudou a costurar um sentimento de união em um país em busca de estabilidade — enquanto persistiam debates sobre identidade e estilo de jogo.
2002 — Pentacampeão e a travessia para um novo ciclo
Com a economia estabilizada e Fernando Henrique Cardoso no Planalto, a relação do governo com o futebol foi mais protocolar — apesar da imagem icônica de Vampeta dando cambalhotas na rampa do Planalto na recepção à delegação. O penta coincidiu com a virada política daquele ano: meses depois, Lula venceria sua primeira eleição presidencial. Para Barenco, democracias também mobilizam o futebol, “talvez de maneira menos direta”, com presença em comemorações e interação com ídolos.
2026 — A disputa simbólica do hexa e o “naming rights” da alegria
- A associação do PL entre Neymar e Flávio Bolsonaro cristaliza uma estratégia conhecida: colar a imagem de ídolos à de candidatos para irradiar popularidade. O silêncio do jogador, ao menos por ora, preserva sua marca de exposição a um público transversal — e evita contaminação em um debate cada vez mais polarizado.
- Do outro lado, Lula busca calibrar expectativas: reconhece a força esportiva da seleção, mas desloca o eixo da discussão do “gênio” individual para o coletivo — um argumento que reduz a personalização do eventual triunfo. Sua brincadeira com Trump sobre vistos também explora, com leveza, o soft power do futebol brasileiro no palco internacional.
- “Só um governo pouco habilidoso não se aproveitaria desse tipo de eventual conquista”, resume Carlos Fico. Em ano eleitoral, o hexa tem valor político instantâneo — e o risco de ser apropriado por diferentes narrativas, a depender da conjuntura e do humor das arquibancadas.
Análise da Revista Oi
- O futebol segue como o mais potente vetor simbólico da política brasileira — transversal a regimes e governos. A história mostra que vitórias e derrotas não definem votos por si, mas moldam climas de opinião. Em 2026, a ofensiva digital do PL com IA e o discurso de Lula ilustram caminhos opostos para capitalizar o momento: personalização versus institucionalização.
- Para Neymar, o cálculo é delicado: associar-se explicitamente a um polo pode reforçar nichos, mas reduzir alcance em um país onde a seleção ainda mobiliza uma audiência plural. Para os candidatos, a tentação de “batizar” a alegria do torcedor é enorme — e o risco de backlash, real, se a performance em campo frustrar.
- Em última instância, a Copa reafirma um traço do país: o gramado como espelho da nação. Em 1958 e 1962, projetou-se autoestima; em 1970, serviu ao ufanismo; em 1994 e 2002, ancorou travessias econômicas e políticas. Em 2026, tende a ser palco e termômetro — não oráculo.
Encerramento
A história confirma: no Brasil, Copa e eleição caminham juntas desde 1994. O hexa, se vier, terá muitos pretendentes à autoria política. Mas, como sempre, quem dará a palavra final serão os 90 minutos — e a capacidade de governos, partidos e candidatos de ler o espírito de um país que, ao celebrar seus craques, também discute quem somos. Até lá, a bola seguirá dividida entre o campo e a narrativa.
Política
Eleição e briga de Alcolumbre com Lula explicam aprovação de ‘pautas-bomba’ no Senado
Em uma quarta-feira (10) de derrotas para o Palácio do Planalto, o Senado aprovou uma série de “pautas-bomba” com potencial de impacto fiscal superior a R$ 200 bilhões, segundo estimativas discutidas pela equipe econômica. No centro do terremoto político estão a disputa pela reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) ao comando do Senado e o desgaste na relação do senador com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — combinação que, somada à decisão do presidente da Casa de avançar com votações sem acordo com o governo, explica a ofensiva que agora ameaça o Orçamento em ano eleitoral.
O que foi aprovado
O principal item aprovado foi o projeto de renegociação das dívidas de produtores rurais, relatado por Renan Calheiros (MDB-AL). A proposta, avaliada por técnicos como de alto risco fiscal, pode gerar impacto de cerca de R$ 140 bilhões ao longo dos próximos dez anos. A matéria avançou mesmo após Alcolumbre, dias antes, sinalizar em plenário — após reunião com o ministro da Fazenda, Dario Durigan — que não colocaria projetos dessa natureza em votação a pedido do governo.
Virada de rota no Senado
Na sessão desta quarta (10), Alcolumbre adotou posição oposta. Sem acordo com o Planalto, pautou a renegociação rural e deu sequência à deliberação. Para líderes governistas, o gesto teve endereço certo: agradar a senadores de diferentes bancadas, em busca de apoio para sua candidatura à reeleição, e enviar um recado a Lula de que deseja abrir um canal direto para “aparar arestas” políticas.
Crise entre o presidente do Senado e o Planalto
A crise entre o presidente do Senado e o Planalto vem de longe. Eles estão rompidos desde que o Senado, sob a condução de Alcolumbre, rejeitou o nome de Jorge Messias para a vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal, episódio que aprofundou o fosso entre as cúpulas dos Poderes e alimentou desconfianças mútuas.
Aposta do governo na Câmara
Diante do revés no Senado, o governo deslocou sua estratégia para a Câmara dos Deputados, ancorado na relação do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), com o Planalto. Ao contrário de Alcolumbre, Motta vive fase de excelente interlocução com Lula e é visto como o principal fiador para conter o avanço das medidas no curto prazo ou, ao menos, moderar seu alcance fiscal por meio de ajustes no texto.
O cálculo político
A leitura no Congresso é de que “pautas-bomba” costumam ganhar tração em períodos eleitorais por atenderem a demandas setoriais, regionais e corporativas, em troca de capital político para lideranças que almejam ampliar influência. No caso de Alcolumbre, a combinação entre necessidade de consolidar apoios e o embate com o Planalto criou o ambiente para a ruptura de compromissos informais firmados com a equipe econômica.
O que são “pautas-bomba”
No jargão de Brasília, “pautas-bomba” são projetos que elevam despesas obrigatórias ou ampliam renúncias de receita sem contrapartidas equivalentes, pressionando o resultado fiscal. Em anos eleitorais, tendem a ressurgir com força, pois oferecem ganhos imediatos a segmentos organizados, enquanto seus custos se acumulam ao longo dos anos. A renegociação ampla de dívidas, reajustes sem fonte de custeio e anistias tributárias são exemplos clássicos dessa categoria.
Análise
A movimentação no Senado expõe dois vetores que se retroalimentam: a disputa pela presidência da Casa e a deterioração da ponte política entre Alcolumbre e o Planalto. Na prática, o líder do Senado usou a agenda econômica como instrumento de poder — tanto para agregar apoios internos quanto para forçar um realinhamento com Lula. Para o governo, a janela de contenção agora depende da Câmara e de sua capacidade de reescrever projetos que, da forma como saíram do Senado, ampliam o passivo fiscal em um patamar incompatível com o compromisso de responsabilidade orçamentária.
Próximos passos
Os textos aprovados no Senado seguem para a Câmara, onde a base governista tentará calibrar escopo e impacto das medidas. O governo trabalha para reatar canais com o Senado e, paralelamente, para construir na Câmara uma barreira a novas derrotas — cenário que, se mal manejado, pode impor ao Executivo uma conta bilionária em pleno ano eleitoral e reordenar as forças no topo do Legislativo.
Política
A mais política das Copas do Mundo – O Assunto #1737
Abertura
A Copa do Mundo que começa nesta quinta-feira, 11 de junho de 2026, promete entrar para a história não só pelo ineditismo esportivo — 48 seleções em campo, sedes espalhadas por Estados Unidos, Canadá e México — mas também pela carga política e econômica que a cerca. Enquanto milhões lotam estádios ao longo de pouco mais de um mês, o torneio convive com duas barreiras centrais: o bolso do torcedor, diante dos ingressos mais caros já praticados, e as restrições de entrada nos EUA, que, sob a administração Donald Trump, impõem dificuldades adicionais a fãs e até a delegações. No campo, o Mundial pode marcar o crepúsculo da era Messi–Cristiano Ronaldo, enquanto o Brasil tenta romper a desconfiança para voltar ao topo.
O torneio da virada: formato, calendário e sedes
- Inédito a três mãos: EUA (11 cidades), México (3) e Canadá (2) dividem a organização — a primeira Copa com três países-sede.
- Expansão histórica: 48 seleções, em 12 grupos de quatro; avançam aos mata-matas os dois melhores de cada grupo e os oito melhores terceiros, inaugurando um novo “round of 32”. Serão 104 partidas ao longo de 39 dias.
- Abertura e encerramento: o Mundial vai de 11 de junho a 19 de julho de 2026, retomando o calendário tradicional de verão no Hemisfério Norte.
- Contexto de bastidores: a candidatura norte-americana (United 2026) venceu o Marrocos no Congresso da Fifa em 2018; o México se torna o primeiro país a sediar uma Copa pela terceira vez; o Canadá estreia como anfitrião.
Política em campo: vistos, fronteiras e a Fifa de Infantino
No episódio O Assunto #1737, Natuza Nery ouve, dos EUA, o jornalista Guga Chacra sobre o clima político: em ano de Copa sediada majoritariamente por um país de fronteiras historicamente rígidas, relatos de entraves de visto e maior escrutínio migratório atingem torcedores e podem alcançar delegações. A meu ver, esse é o ponto que transforma 2026 na Copa mais politizada desde o início do século: a experiência do torcedor passa a ser também um capítulo de política pública.
Há ainda a política do futebol. Gianni Infantino, presidente da Fifa, construiu, desde 2016, uma agenda de expansão da Copa — uma decisão com nítido cálculo geopolítico (mais países contemplados, mais votos, mais mercados). O relacionamento com Washington não é de hoje: em 2018, Infantino visitou a Casa Branca, em gesto simbólico logo após o apoio à candidatura tripla de 2026. Esse entrelaçamento entre poder esportivo e poder político ajuda a explicar tanto a escolha do modelo de Copa quanto a disposição da Fifa em aceitar preços altos e uma logística complexa em troca de alcance e receita recordes.
O peso do bolso: os ingressos mais caros
A promessa de “Copa para todos” esbarra na realidade do preço. A política de preços e o uso de modelos dinâmicos de bilhetagem tornaram os tíquetes os mais caros de todos os tempos, segundo levantamento setorial e reportagens recentes. Some-se a isso o custo de transporte e hospedagem no eixo EUA–Canadá–México — e tem-se um Mundial que, do ponto de vista do torcedor comum, é menos acessível do que edições anteriores. Na prática, há risco reputacional para a Fifa ao afastar parte do público que faz a festa nas arquibancadas.
Dentro de campo: fim de uma era e novos protagonistas
Dois dos maiores da história, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, chegam a 2026 no limite do ciclo. Mesmo que um deles ainda pise no gramado, a percepção de que vivemos o capítulo final dessa dupla eleva a tensão esportiva do torneio. É o momento em que as novas lideranças — algumas já consolidadas na Europa e na América do Sul — têm a chance de assumir o protagonismo.
Brasil: entre a cobrança e a reconstrução
A Seleção inicia o Mundial sob o comando de Dorival Júnior, técnico efetivado em janeiro de 2024, após meses de incerteza e idas e vindas em torno do nome de Carlo Ancelotti. A correção é necessária: embora Ancelotti tenha sido cotado e tratado como plano da CBF, foi Dorival quem assumiu o ciclo e conduziu o processo de reconstrução. No episódio, André Rizek avalia o quadro competitivo: tradicionais potências chegam fortes, e há espaço para surpresas — um cenário em que o Brasil, penta desde 2002, precisa combinar solidez tática, elenco saudável e nervos no lugar para voltar a ser protagonista. Minha leitura é que a Seleção tem material humano para brigar, mas depende de consistência defensiva e de um encaixe fino no ataque para superar rivais com projetos mais estáveis desde 2018.
Infantino, Trump e o tabuleiro global do futebol
O argumento político que cerca 2026 não se esgota nos vistos. A expansão para 48 seleções amplia a pegada diplomática do evento: mais vagas para confederações fora da Europa e da América do Sul, maior capilaridade de mercados de TV e patrocínio e uma aposta da Fifa no soft power do futebol como ativo econômico. A relação de Infantino com lideranças políticas — inclusive com a Casa Branca à época da confirmação da sede — ajuda a entender por que 2026 é, acima de tudo, um projeto global de influência.
Por que esta é a Copa mais política
- Fronteiras e acesso: checagens de imigração e complexidade de viagem entre três países afetam torcidas e, potencialmente, equipes.
- Economia do espetáculo: preços recordes comprimem a participação do torcedor tradicional e reforçam a lógica de maximização de receita.
- Geopolítica da bola: a Fifa usa a expansão para ampliar seu raio de influência e consolidar alianças — um jogo de poder que extrapola o gramado.
Encerramento
A Copa de 2026 será lembrada como um divisor de águas: maior, mais longa, mais cara — e mais atravessada pela política. Entre o adeus a uma era de superastros e a busca brasileira pelo hexa, o Mundial nos EUA, Canadá e México testa os limites do futebol como festa popular em tempos de fronteiras rígidas e de um esporte cada vez mais globalizado e comercial. O que veremos a partir desta quinta-feira dirá se, apesar de tudo, a bola ainda consegue falar mais alto.
Serviço — O Assunto #1737
- Apresentação: Natuza Nery.
- Convidados: Guga Chacra (Globonews, TV Globo, CBN e O Globo) e André Rizek (editor-chefe e apresentador do Seleção SporTV e Fechamento SporTV).
- Produção: Luiz Felipe Silva, Sarah Resende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stéphanie Nascimento e Guilherme Gama.
- O Assunto é o podcast diário do g1, disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube, com mais de 168 milhões de downloads somados nas plataformas e 14,2 milhões de visualizações no YouTube desde agosto de 2019.
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