Política
‘Débora do Batom’, presa no 8 de Janeiro, pede redução da pena após derrubada do veto da dosimetria
A defesa da cabelereira Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como “Débora do Batom”, protocolou nesta sexta-feira (1º) um pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) para readequar sua pena de 14 anos, à luz da derrubada do veto presidencial ao chamado PL da Dosimetria pelo Congresso Nacional na quinta-feira (30). Condenada por sua participação nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, ela sustenta que a nova regra, ao ser promulgada, terá aplicação retroativa por ser mais benéfica.
Quem é a condenada e o que diz a acusação
Débora foi sentenciada a 14 anos de prisão pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração do patrimônio tombado e associação criminosa armada. De acordo com a Polícia Federal, foi ela quem pichou a frase “Perdeu, mané” na escultura “A Justiça”, em frente ao edifício do STF, durante a depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. O conjunto de crimes a que foi vinculada reflete a gravidade dos atos e a pluralidade de condutas atribuídas aos condenados naquele dia.
Argumento da defesa
No pedido, os advogados afirmam que a lei penal mais benéfica retroage para alcançar fatos anteriores, devendo incidir na execução penal. A defesa sustenta que, “ainda que pendente de vigência formal, sua aprovação já revela orientação normativa inequívoca”, apta a impactar o cálculo da pena. Em termos práticos, a estratégia busca adequar a dosimetria da condenação caso a nova lei, ao ser promulgada e publicada, estabeleça parâmetros mais brandos para o cômputo de penas relacionadas aos atos de 8 de janeiro.
Situação atual de cumprimento da pena
Desde março do ano passado, Débora cumpre prisão domiciliar. À época, ela estava presa preventivamente, por ainda não ter sido julgada. Em setembro, após a condenação em definitivo, o ministro Alexandre de Moraes manteve a domiciliar — medida que, agora, pode ser novamente reavaliada na fase de execução, a depender de eventuais efeitos da nova legislação sobre o total da pena e o regime de cumprimento.
O que mudou com a derrubada do veto
A Câmara dos Deputados e o Senado Federal rejeitaram o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao PL da Dosimetria, que prevê possibilidade de redução de penas de condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023. Na Câmara, foram 318 votos a favor da derrubada e 144 contrários; no Senado, 49 a 24. O texto segue para promulgação: o presidente da República tem até 48 horas para promulgar. Se não o fizer, a tarefa passa ao presidente do Senado e, depois, ao vice-presidente da Casa. Após promulgação e publicação, a regra passa a valer.
Segundo o ministro Alexandre de Moraes, ao menos 190 condenados podem ser beneficiados pela nova disciplina da dosimetria — número que inclui o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mesmo após entrar em vigor, o texto poderá ser questionado no STF, que decidirá sobre a validade de eventuais mudanças e, se for o caso, sobre sua aplicação aos processos em curso e às execuções penais.
Análise
O movimento da defesa de Débora é juridicamente previsível e tende a se repetir entre os condenados do 8 de janeiro, diante do potencial alcance do PL da Dosimetria. A combinação de três fatores — derrubada expressiva do veto no Congresso, possibilidade de beneficiar cerca de 190 pessoas e a chance de questionamento no STF — sinaliza uma disputa jurídica imediata na execução das penas. Em termos práticos, caso a lei seja promulgada sem suspensão e se confirme mais benéfica, a retroatividade deverá ser considerada na execução penal, como pleiteia a defesa. Ao mesmo tempo, a provável judicialização no STF pode modular efeitos e prazos, o que manterá o tema no centro das tensões institucionais.
Próximos passos
- Promulgação: o Executivo tem 48 horas para promulgar; na ausência, cabe ao Senado.
- Eventual questionamento no STF: a Corte pode avaliar a constitucionalidade e definir a aplicação das mudanças.
- Execução penal: defesas devem protocolar pedidos de readequação de pena, como o de Débora, buscando reduzir o tempo de cumprimento e revisar regimes.
A decisão sobre a aplicação imediata e retroativa da nova dosimetria caberá, em última instância, ao STF. Até lá, pedidos como o de “Débora do Batom” inauguram uma rodada de revisões que pode redesenhar, na prática, o mapa das punições impostas aos condenados do 8 de janeiro.
Política
TSE rejeita recurso e confirma cassação de Silvia Waiãpi, ex-deputada indígena apoiadora de Bolsonaro
Em decisão unânime nesta quinta-feira (30), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou o recurso da ex-deputada federal Sílvia Nobre Lopes (PL-AP), conhecida como Silvia Waiãpi, e confirmou a cassação do mandato por uso irregular de verbas públicas de campanha. O colegiado manteve o entendimento do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) de que a então candidata utilizou R$ 9 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para pagar um procedimento estético de harmonização facial em Macapá. A Corte superior determinou a nulidade dos votos obtidos por Waiãpi, a retotalização dos resultados e o recálculo dos quocientes eleitoral e partidário no estado.
Decisão unânime e fundamentos
- Relator do caso no TSE, o ministro André Mendonça afirmou que ficou comprovado o uso de recursos do FEFC para custear despesa pessoal — a harmonização facial no valor de R$ 9 mil. Segundo o voto, houve ainda a emissão de nota fiscal para conferir aparência de legalidade a um gasto inexistente de campanha, o que afronta a moralidade administrativa e a transparência do processo eleitoral.
- O plenário constatou que a falsificação da nota fiscal visou encobrir a despesa irregular, reforçando a gravidade da conduta. A unanimidade da decisão reforça a robustez do conjunto probatório analisado pela Justiça Eleitoral.
Como o caso chegou ao TSE
- A representação inicial apontou que recursos públicos destinados à campanha de 2022 foram usados para pagar o procedimento em consultório odontológico na capital amapaense.
- Em 19 de junho de 2024, o TRE-AP cassou o mandato de Waiãpi por gasto ilícito de campanha. A Procuradoria-Geral da República (PGR) propôs a representação e, no TSE, o vice-procurador-geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, sustentou oralmente que documentos e testemunhos comprovaram o uso indevido do FEFC.
- O TSE confirmou integralmente a decisão regional, encerrando a discussão em instância eleitoral superior.
Consequências práticas no Amapá
- Com a nulidade dos votos de Silvia Waiãpi e a retotalização, a Justiça Eleitoral fará novos cálculos dos quocientes eleitoral e partidário. Essa revisão pode alterar a composição da bancada do Amapá na Câmara dos Deputados e a distribuição de vagas entre os partidos, inclusive o PL, legenda pela qual a ex-parlamentar se elegeu em 2022.
- A definição de quem assumirá a cadeira será feita após a retotalização oficial dos votos pelo TRE-AP, seguindo os critérios legais de distribuição de vagas.
Quem é Silvia Waiãpi
- Sílvia Nobre Lopes, conhecida como Silvia Waiãpi, é política do Amapá, eleita deputada federal em 2022 pelo PL. Indígena e aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro, exerceu o mandato na 57ª Legislatura. Segundo a Wikipedia, seu período na Câmara abrangeu 2023–2025, interrompido pela decisão da Justiça Eleitoral.
Contexto e mensagem institucional
- O caso destaca a vigilância da Justiça Eleitoral sobre o uso do FEFC, fundo público destinado exclusivamente a despesas de campanha. O desvio de finalidade — especialmente para custear despesa de natureza pessoal — é considerado violação grave, sujeita a sanções como cassação, nulidade de votos e eventual responsabilização em outras esferas.
Opinião da Revista Oi
A decisão do TSE é um recado claro à classe política: a integridade das contas de campanha e a transparência no uso de recursos públicos são inegociáveis. A unanimidade do julgamento, ancorada em documentação e na constatação de falsificação de nota fiscal, confere solidez ao veredito e reforça a coerência do sistema de controle eleitoral entre TREs e o TSE. Para o eleitor, a retotalização corrige a distorção causada pelo uso ilícito de recursos e preserva a legitimidade do resultado das urnas no Amapá.
Fontes e verificação
- Decisões e votos do TSE; acórdão que confirmou a cassação e determinou a nulidade dos votos e a retotalização.
- Julgamento do TRE-AP de 19/06/2024 que cassou o mandato por uso de R$ 9 mil do FEFC em procedimento estético.
- Sustentação do vice-procurador-geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, e informações públicas sobre o caso.
- Verificação biográfica: Silvia Waiãpi (Wikipedia).
Política
Líder do PL abraça Messias em sabatina, é criticado e se explica: ‘Princípio de educação’
Sinal de civilidade ou ruído político?
O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), virou alvo de críticas de apoiadores bolsonaristas após abraçar o advogado-geral da União, Jorge Messias, durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, nesta quarta-feira (29), em Brasília. Para conter a reação, o parlamentar publicou um vídeo nas redes sociais no qual afirma que o gesto foi apenas “princípio de educação” e reitera que seu partido votará contra a indicação de Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Gesto vira munição nas redes
- No vídeo, Sóstenes rechaça qualquer interpretação de apoio à indicação. “Ser educado não pode ser confundido com posicionamento político. O PL no Senado já fechou questão e todos os nossos senadores votarão contra a indicação de Jorge Messias para o STF”, disse.
- O deputado também relatou que já esteve com o AGU em outras ocasiões para tratar de interesses do Rio de Janeiro e da bancada do PL: “Na convivência política a gente se conhece. Já fui recebido pelo AGU algumas vezes para tratar de assuntos de interesses do meu estado, de interesses da bancada do PL, e o cumprimento é um princípio de educação.”
- Diante da pressão de sua base, Sóstenes reforçou o recado: “Fiquem tranquilos, toda a bancada do PL votará contra a indicação de Jorge Messias para o STF.”
PL mantém oposição e tenta conter desgaste
- A manifestação pública do líder do PL busca isolar o gesto de cortesia do campo da disputa política, preservando a estratégia do partido de se colocar frontalmente contra a indicação do governo.
- O próprio deputado faz a ponte entre pragmatismo e oposição: reconhece a necessidade de interlocução institucional com o AGU sobre pautas regionais e partidárias, mas demarca voto contrário no Senado, onde a votação será secreta.
O que está em jogo na sabatina
- Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jorge Messias, atual advogado-geral da União, é submetido à sabatina na CCJ antes de seu nome ir a plenário. Trata-se de uma etapa decisiva do rito constitucional para compor o STF.
- A avaliação no Congresso é de que o placar tende a ser apertado. Aliados do governo projetam cerca de 45 votos favoráveis, mas, por ser votação secreta, o cenário pode mudar até o momento da decisão.
Contexto e próximos passos
- A sabatina na CCJ mede a temperatura política e a capacidade de articulação do indicado e do governo. Após o parecer da comissão, o nome segue para o plenário do Senado, onde precisa de maioria simples dos presentes para aprovação.
- Se aprovado, Messias assume a cadeira no Supremo; em caso de rejeição, caberá ao presidente indicar outro nome.
Análise | Civilidade sob pressão e o custo simbólico dos gestos
- O episódio expõe a tensão permanente entre a liturgia institucional e a polarização. Em ambientes altamente mobilizados, um gesto protocolar — um cumprimento, um abraço — vira insumo para testes de lealdade nas redes. Sóstenes tenta reduzir o custo político do gesto reafirmando a oposição cerrada do PL à indicação.
- Para o governo, a controvérsia tem efeito colateral: reforça a narrativa de que a normalidade republicana (diálogo entre poderes e civilidade) deve conviver com o dissenso. Se a votação for apertada, cada sinal público — inclusive de urbanidade — ganha peso simbólico. A depender do desfecho, o Planalto pode registrar uma vitória relevante em um Senado dividido; já a oposição trabalhará para traduzir o placar, mesmo que minoritário, como demonstração de força e coesão.
Encerramento
A declaração de Sóstenes Cavalcante tenta encerrar um ruído típico da política em tempos de hiperexposição: “educação” não é sinônimo de “apoio”. Enquanto o PL reafirma voto contrário e o governo busca consolidar apoios, a sabatina de Jorge Messias na CCJ e a votação secreta no plenário do Senado deverão calibrar o grau de governabilidade e a temperatura da disputa em torno do STF nas próximas semanas.
Política
Escala 6×1: CNI entrega manifesto a Hugo Motta contra mudanças na jornada de trabalho
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) entregou nesta terça-feira (28) um manifesto ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), expressando preocupação com o avanço de propostas que visam acabar com a escala 6×1 na legislação trabalhista. O movimento ocorre às vésperas da instalação, nesta quarta (29), da comissão especial que analisará o tema. Segundo a CNI, a eventual redução da jornada pode elevar os custos das empresas com empregados formais em até R$ 267 bilhões por ano.
Manifesto da indústria
Assinado pela CNI em conjunto com 27 federações estaduais, 98 associações setoriais e 741 sindicatos industriais, o documento afirma que, embora o debate sobre jornada e descanso seja legítimo, as propostas em análise “podem provocar impactos severos sobre a economia, os investimentos e a criação de empregos formais”. A entidade sustenta ainda que “mudanças estruturais na legislação trabalhista precisam ser construídas com base em evidências, diálogo técnico e responsabilidade econômica”.
Comissão especial e relatoria
Hugo Motta anunciou nesta terça (28) os deputados que comandarão a comissão especial: Alencar Santana (PT-SP) será o presidente do colegiado, e Léo Prates (Republicanos-BA), o relator. O grupo terá 38 integrantes. Caberá ao relator consolidar uma proposta a partir de dois textos já apresentados pela deputada Érika Hilton (Psol-SP) e pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Prates, porém, tem liberdade para construir um texto independente, desde que obtenha maioria na comissão.
Segundo Motta, a intenção é votar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) em plenário ainda em maio, em homenagem ao Dia do Trabalhador, celebrado em 1º de maio. O presidente da Câmara frisou que pretende ouvir “todo o setor produtivo” antes da finalização do texto. “Toda e qualquer sugestão ao texto é válida e a comissão vai debater. Não vai ser a vontade de um partido ou de um grupo que prevalecerá. Será a vontade média da Casa”, afirmou, antes de receber o documento da CNI.
Três frentes em tramitação
Além das duas sugestões que embasam o trabalho da comissão, há outras iniciativas em curso. Duas semanas atrás, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encaminhou ao Congresso um projeto de lei que trata do mesmo tema, com o objetivo central de abolir o modelo de seis dias de trabalho para um de descanso e instituir um novo patamar de jornada semanal e de repouso. Na prática, Câmara e Executivo conduzem, em paralelo, três textos sobre o assunto.
O que está em jogo
A escala 6×1 é hoje uma referência de organização de jornada em diversos setores e está prevista na legislação trabalhista. O debate no Congresso envolve não apenas o desenho de um novo modelo — com mais dias de descanso e eventual redução de horas semanais —, mas também os efeitos de transição para empresas e trabalhadores, incluindo custos adicionais, impacto sobre produtividade, emprego formal e negociações coletivas.
Os números apresentados pela CNI dimensionam o tamanho da preocupação do setor industrial. Um aumento potencial de até R$ 267 bilhões por ano em custos de mão de obra, caso se confirme, teria efeitos diretos sobre a competitividade, margens de investimento e decisões de contratação. Por outro lado, defensores de mudanças na escala argumentam que jornadas mais curtas e mais descanso tendem a reduzir afastamentos, melhorar a saúde do trabalhador e elevar a produtividade por hora, temas que deverão ser explorados na comissão.
Sinais políticos
A decisão de Hugo Motta — presidente da Câmara e filiado ao Republicanos — de acelerar a votação para maio é um recado político claro de que a Casa quer protagonismo no tema. Ao mesmo tempo em que promete ouvir o setor produtivo, Motta mantém um cronograma apertado, o que sugere um esforço para construir uma “vontade média” entre pressões da indústria, pautas do governo e propostas da esquerda que já tramitam.
Na avaliação da Revista Oi, o debate tende a ser um teste de equilíbrio entre competitividade e proteção social. A sinalização da CNI — com uma frente ampla de entidades — eleva o custo político de avanços que desconsiderem impactos econômicos. Já a disposição do comando da Câmara de votar rapidamente, associando o calendário ao 1º de Maio, indica que a disputa de narrativa também estará em jogo.
Próximos passos
A comissão especial será instalada nesta quarta (29), quando deve ser definido o plano de trabalho do relator Léo Prates, com audiências para ouvir representantes de trabalhadores, empresas, especialistas e governo. A depender do consenso em torno de um texto, a proposta poderá chegar ao plenário ainda em maio. Até lá, a pressão da indústria e a estratégia do governo no Congresso — com seu próprio projeto — serão determinantes para o formato final das mudanças na jornada e no descanso semanal.
Fontes
Informações públicas da Câmara dos Deputados e da CNI; anúncios oficiais repercutidos pela imprensa; perfil público de Hugo Motta e composição partidária dos deputados citados.
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