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Política

Explosão de negócios da família Trump abre caminho para presidentes dos EUA lucrarem com o cargo

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Revista Oi

A rápida expansão dos negócios da família Trump, com foco em projetos no exterior e em criptoativos durante o segundo mandato, reacendeu um debate central na política americana: onde termina o interesse público e começa o interesse privado de um presidente em exercício. Enquanto acordos internacionais, investimentos em setores sensíveis e receitas bilionárias com moedas digitais elevaram substancialmente a fortuna do clã, especialistas em ética alertam para conflitos de interesse “sem precedentes” e seu impacto sobre a democracia dos Estados Unidos.

Expansão internacional e cripto: uma virada de chave

Segundo reportagens e registros citados por veículos como The New York Times, Wall Street Journal e Associated Press (AP), a Trump Organization — sob comando de Eric Trump e Donald Trump Jr. — acelerou a internacionalização de seus negócios após um primeiro mandato em que evitou fechar novos acordos fora dos EUA. Em pouco mais de um ano no segundo mandato, já foram anunciados oito empreendimentos no exterior. Paralelamente, a família ingressou com força no ecossistema de criptoativos, criando novas fontes de receita por meio de plataformas, tokens e moedas “meme”.

A entrada nas criptomoedas elevou receitas a patamares bilionários. A World Liberty, empresa ligada à família, vendeu “tokens de governança” que concedem direito a voto em decisões da plataforma sem transferir controle societário; apenas no ano passado, esses tokens arrecadaram US$ 2 bilhões. Entre os compradores está o empresário Justin Sun, que, por ser estrangeiro, não pode doar a políticos nos EUA — ele gastou US$ 75 milhões nos tokens entre a eleição e a posse, e mais tarde adquiriu US$ 200 milhões em moedas “meme” com a imagem de Trump, o que lhe garantiu acesso a eventos exclusivos.

Negócios com potenciais impactos de política externa

Os novos acordos levantam questionamentos sobre eventuais benefícios concedidos a parceiros estratégicos. No Catar, um clube de golfe e casas de luxo com a marca Trump estão sendo erguidos com participação de uma empresa estatal. No Vietnã, o governo desapropriou terras de agricultores para viabilizar um resort, em um acordo aprovado em cerimônia oficial com a presença do vice-primeiro-ministro, segundo o NYT. E na Arábia Saudita, um empreendimento chamado “Trump Plaza” à beira do Mar Vermelho é tocado por uma companhia próxima à família real. Em janeiro, a Trump Organization anunciou um terceiro acerto no país em menos de um ano — mansões, hotel e campo de golfe próximos a Riad — em colaboração com empresa pertencente ao fundo soberano saudita.

Não há comprovação direta de que esses negócios tenham alterado decisões de Washington em favor desses países. Ainda assim, os resultados práticos chamam atenção: o Catar obteve acesso a tecnologia americana, o Vietnã conquistou redução de tarifas e a Arábia Saudita recebeu aviões de combate — enquanto a Trump Organization arrecadou dezenas de milhões de dólares em taxas. A empresa sustenta que não faz negócios com governos estrangeiros, descrevendo a operação no Catar como “colaboração” e afirmando que a parceira saudita é privada; não comentou casos específicos que envolvem fundos soberanos.

Cripto: vendas bilionárias, chips e um perdão presidencial

Outro ponto sensível surgiu com a World Liberty Financial. Pouco antes da posse, quase metade da empresa foi vendida por US$ 500 milhões a uma companhia controlada por integrante da família real dos Emirados Árabes Unidos. Outro fundo estatal dos Emirados investiu US$ 2 bilhões na Binance usando uma moeda digital criada pela World Liberty. Com isso, a empresa vinculada à família Trump aplicou os recursos em ativos considerados seguros e obteve dezenas de milhões de dólares em juros.

Na sequência, o governo Trump revogou uma regra do governo Biden e permitiu a venda de chips avançados aos Emirados. Mais tarde, Changpeng Zhao, fundador da Binance que havia se declarado culpado por falhas de compliance na plataforma, recebeu perdão presidencial. O advogado de Zhao negou qualquer relação entre os negócios e o perdão. A Casa Branca disse que Zhao foi punido injustamente em meio ao que classificou como “guerra da administração Biden contra as criptomoedas”. A World Liberty também negou conflito de interesse, afirmando que o acordo com os Emirados não teve ligação com a decisão sobre chips.

A monetização da imagem: moedas “meme”, clubes e produtos

A estratégia comercial avança ainda pela venda direta ao público. Moedas “meme” com o rosto de Trump arrecadaram US$ 320 milhões em quatro meses, segundo a Chainalysis, superando em mais que o dobro a receita de quatro anos do antigo hotel Trump International, em Washington, D.C., no primeiro mandato. Compradores dessas moedas podem permanecer anônimos, diferentemente de doações eleitorais, o que cria novas rotas de influência sem transparência tradicional.

No mercado físico, Donald Trump Jr. lançou um clube privado em Georgetown, Washington, batizado “Executive Branch”, com cotas de até US$ 500 mil para membros fundadores. O apelo ali é a proximidade com o centro do poder. Paralelamente, o presidente tem promovido itens como Bíblias “God Bless the USA” (US$ 59,99), tênis “Never Surrender” (US$ 399) e guitarras autografadas que chegam a US$ 11.500.

Investimentos em setores sensíveis e busca por contratos públicos

Eric e Donald Jr. também investiram em empresas que disputam contratos com o governo federal — entre elas, uma fabricante de drones armados que busca vender ao Pentágono e a aliados dos EUA no Golfo, além de uma produtora de motores de foguetes, uma fornecedora de chips de inteligência artificial e uma empresa de análise de dados. Registros oficiais citados por veículos de imprensa mostram que esses negócios já movimentam dezenas de milhões de dólares em recursos públicos. Questionado após o acordo dos drones, Eric Trump respondeu: “Tenho um orgulho enorme de investir em empresas nas quais acredito.” Um representante de Donald Jr. afirmou que ele não “interage” com o governo sobre essas empresas e que esperar que ele deixe de prover a própria família é “um padrão risível e ridículo”.

Mercado, risco e volatilidade

A família também surfou a alta de ativos digitais. A American Bitcoin abriu capital em setembro, o que avaliou a fatia de Donald Jr. e Eric em cerca de US$ 1 bilhão na época — meses depois de o presidente anunciar a criação de uma reserva nacional de bitcoin, medida que impulsionou a cotação. A volatilidade do setor, porém, cobrou seu preço: tanto as ações da American Bitcoin quanto o valor das moedas “meme” teriam caído cerca de 90% desde o pico. Mesmo assim, anúncios de novos eventos exclusivos com grandes detentores das moedas chegaram a provocar repiques temporários.

Defesas, reações e a opinião pública

Questionada, a Casa Branca afirma que Trump age “de maneira ética” e que críticas são “mal informadas ou maliciosas”. A porta-voz Anna Kelly diz que os ativos do presidente estão sob administração dos filhos e que ele “não tem envolvimento” nos negócios da família. A Trump Organization declara cumprir “integralmente as leis de ética e de conflitos de interesse” e rejeita a “insinuação” de que a política enriqueceu a família.

Ainda assim, a percepção pública parece estar em mutação. Em pesquisa do Pew Research Center de janeiro, 42% dos eleitores republicanos disseram confiar que Trump age eticamente, abaixo dos 55% do início do segundo mandato. Em fala ao The New York Times, o presidente sugeriu que “ninguém se importava” com conflitos de interesse, citando a exceção legal que isenta o chefe do Executivo de restrições aplicáveis a outros funcionários.

Contexto histórico e a cláusula dos emolumentos

Historicamente, presidentes buscaram evitar a aparência de ganho privado associado ao cargo. Harry Truman não permitiu o uso comercial de seu nome nem após deixar a Casa Branca; Richard Nixon chegou a mandar instalar escutas no telefone do irmão por temer favorecimentos; George W. Bush se desfez de todas as ações antes de tomar posse. Outros casos cercaram famílias presidenciais: Hunter Biden integrou o conselho de uma empresa ucraniana enquanto Joe Biden era vice; a Fundação Clinton recebeu doações estrangeiras após o término do mandato de Bill Clinton; o irmão de Jimmy Carter explorou o sobrenome para vender cerveja. Nenhum desses exemplos, porém, envolveu um presidente em exercício liderando uma expansão internacional e digital de negócios privados nessa escala.

No pano de fundo jurídico, a Foreign Emoluments Clause da Constituição dos EUA proíbe que ocupantes de cargos federais aceitem presentes, vantagens ou títulos de governos estrangeiros sem consentimento do Congresso. A aplicação ao presidente e o alcance prático desse dispositivo seguem objeto de debate acadêmico e tiveram pouca análise judicial substantiva. Ainda assim, o princípio nela contido — blindar o poder público de influências externas — está no centro das preocupações descritas por historiadores como Julian Zelizer (Princeton), que vê “nenhuma linha” separando decisões políticas e interesses da família Trump, e Timothy Naftali (Columbia), para quem “quaisquer restrições do primeiro mandato parecem ter desaparecido”.

Dinheiro conta — e muda o jogo

A Forbes estima a fortuna de Donald Trump em US$ 6,3 bilhões — 60% a mais do que antes de ele retornar à Presidência —, um salto notável após anos de dificuldades em alguns ativos tradicionais da marca. O hotel Trump International em Washington nunca foi lucrativo antes de ser vendido em 2022; redes voltadas à classe média fecharam no primeiro mandato; e prédios residenciais retiraram o nome “Trump” das fachadas para não afastar compradores. Hoje, em Washington e em setores diretamente expostos a decisões governamentais, a marca recupera valor.

Opinião

Com base nos fatos e relatos apresentados por veículos de referência, a linha que separa o público do privado na Presidência parece ter se tornado mais tênue. A combinação de negócios externos com participação de entes estatais, receitas não transparentes via cripto e investimentos da família em empresas que buscam contratos com o próprio governo configura, no mínimo, um cenário de riscos éticos reais. Mesmo quando não há prova de contrapartida direta, a aparência de conflito já é corrosiva — sobretudo quando envolvida em decisões sensíveis de política externa e tecnológica. O precedente que se desenha, se não for enfrentado por regras mais claras e fiscalização mais firme, tende a institucionalizar um modelo em que o cargo máximo do país pode se tornar uma alavanca de monetização privada. Isso não é apenas um debate moral: é um teste de estresse para a confiança pública em instituições democráticas.

O que observar a seguir

  • Transparência: divulgação de contratos, investidores e estruturas societárias dos novos empreendimentos.
  • Supervisão: posição do Congresso sobre salvaguardas e aplicação de normas de ética, inclusive quanto a negócios com entes estatais estrangeiros.
  • Mercado: a resiliência — ou não — das fontes de receita em cripto diante da volatilidade e de maior escrutínio regulatório.
  • Política externa: sinais de alinhamento entre decisões estratégicas dos EUA e interesses comerciais privados de parceiros estrangeiros ligados aos negócios da família.

Em um país cuja Constituição buscou, desde a origem, blindar o poder político de influências econômicas externas, o momento exige luz forte sobre o que é negócio e o que é governo — e, sobretudo, onde nenhum dos dois deveria se encontrar.

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Política

De Pelé a Neymar: como futebol e política no Brasil se cruzam nas Copas do Mundo

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Brasília, 13 de junho de 2026

A poucos dias do início da Copa do Mundo de 2026, a relação entre futebol e política voltou ao centro do debate público no Brasil. Após a convocação de Neymar pelo técnico Carlo Ancelotti, o Partido Liberal (PL) publicou nas redes um vídeo produzido com inteligência artificial associando a imagem do jogador à do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República. “Flávio é Neymar e Neymar é Flávio”, diz a peça — rapidamente repercutida pelo parlamentar, que divulgou foto ao lado do atleta. Neymar não se manifestou. Em paralelo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ver chances do hexa, mas avaliou que o país vive uma fase sem “grandes ídolos” no futebol. O episódio reacende um enredo recorrente: a cada quatro anos, o campo e o palanque se encontram — independentemente do governante e de sua inclinação ideológica.

Antes da bola rolar: política em campo

  • O uso da seleção como capital simbólico não é novo. “Hoje em dia os atletas são muito mais do que jogadores. Eles também são celebridades. E o Neymar é, sem dúvida, o grande atleta da geração brasileira”, observa Bruna Barenco, mestre e doutoranda em História (UFF). Em ambiente eleitoral, a visibilidade se amplifica: “No Brasil, todo ano [desde 1994] de Copa é ano de eleição. Então o futebol ganha uma importância muito maior. Tudo o que esses jogadores falam ou fazem acaba tendo impacto político também”, explica.
  • Ao comentar a convocação, Lula disse na TV Brasil que o Brasil pode ser campeão, mas sem a figura de um grande ídolo como em outras épocas: “Lamentavelmente, a gente não está em uma fase de produção de tantos gênios… A seleção pode ser campeã do mundo, mas o problema é que nossa seleção não tem mais nenhum ídolo.”
  • Em encontro com Donald Trump, em 7 de maio, Lula brincou sobre a entrada dos jogadores nos EUA durante a Copa: “Espero que você não anule o visto dos jogadores da seleção brasileira, porque a gente vai vir para ganhar a Copa do Mundo.”

1958 — Anos Dourados e o fim do “complexo de vira-lata”

Sob Juscelino Kubitschek, a vitória na Suécia, liderada por Pelé e Garrincha, dialogou com o otimismo desenvolvimentista — Brasília em construção, arquitetura de Niemeyer, Bossa Nova em ascensão. O governo celebrou a conquista com festa no Palácio do Catete e discursos que ecoavam a ideia de identidade nacional miscigenada. Para além do troféu, a campanha confrontou o “Complexo de Vira-lata”, expressão de Nelson Rodrigues após o trauma de 1950, reposicionando o Brasil no imaginário internacional.

1962 — Jango, diplomacia e a urgência do bicampeonato

A Copa do Chile consolidou a imagem do Brasil como potência futebolística em meio a um cenário político tenso — a última antes de um longo hiato sem presidente eleito diretamente. Com Pelé lesionado e Garrincha suspenso nas semifinais, a participação do camisa 7 na final virou questão de Estado. Tancredo Neves, então primeiro-ministro, foi acionado para interceder junto à Fifa e às autoridades chilenas. Garrincha acabou liberado, e o título ajudou a reforçar a ideia de um país já integrado “à dinâmica mundial de poder”, como pontua Bruna Barenco.

1970 — Ditadura, ufanismo e o poder das imagens

O regime militar transformou o futebol em vitrine. Emílio Garrastazu Médici frequentava estádios, associava-se a clubes e via na seleção um ativo de propaganda. A conquista no México, no auge do “Milagre Econômico”, foi trilha do ufanismo ao som de “Pra Frente, Brasil”. A engrenagem política também se fez sentir no banco de reservas: João Saldanha caiu a 72 dias da estreia, após responder com ironia à suposta pressão de Médici para convocar Dadá Maravilha — “Nem Saldanha escala o ministério, nem Médici escala a seleção.” Zagallo assumiu e levou o time ao tricampeonato. Para o historiador Carlos Fico (UFRJ), o sucesso de hinos patrióticos não significou adesão automática ao regime, mas ilustrou a tentativa de construir uma “unidade nacional” pela bola.

1994 — Plano Real, luto e pragmatismo campeão

Em meio à redemocratização recente, ao impeachment de Collor e ao lançamento do Plano Real, a seleção de Romário, Bebeto, Dunga e Taffarel foi eficiente, ainda que pouco exuberante, num ano marcado pela hiperinflação e pela comoção com a morte de Ayrton Senna. “O futebol começava a tentar se afastar da política”, lembra Barenco. O tetracampeonato ajudou a costurar um sentimento de união em um país em busca de estabilidade — enquanto persistiam debates sobre identidade e estilo de jogo.

2002 — Pentacampeão e a travessia para um novo ciclo

Com a economia estabilizada e Fernando Henrique Cardoso no Planalto, a relação do governo com o futebol foi mais protocolar — apesar da imagem icônica de Vampeta dando cambalhotas na rampa do Planalto na recepção à delegação. O penta coincidiu com a virada política daquele ano: meses depois, Lula venceria sua primeira eleição presidencial. Para Barenco, democracias também mobilizam o futebol, “talvez de maneira menos direta”, com presença em comemorações e interação com ídolos.

2026 — A disputa simbólica do hexa e o “naming rights” da alegria

  • A associação do PL entre Neymar e Flávio Bolsonaro cristaliza uma estratégia conhecida: colar a imagem de ídolos à de candidatos para irradiar popularidade. O silêncio do jogador, ao menos por ora, preserva sua marca de exposição a um público transversal — e evita contaminação em um debate cada vez mais polarizado.
  • Do outro lado, Lula busca calibrar expectativas: reconhece a força esportiva da seleção, mas desloca o eixo da discussão do “gênio” individual para o coletivo — um argumento que reduz a personalização do eventual triunfo. Sua brincadeira com Trump sobre vistos também explora, com leveza, o soft power do futebol brasileiro no palco internacional.
  • “Só um governo pouco habilidoso não se aproveitaria desse tipo de eventual conquista”, resume Carlos Fico. Em ano eleitoral, o hexa tem valor político instantâneo — e o risco de ser apropriado por diferentes narrativas, a depender da conjuntura e do humor das arquibancadas.

Análise da Revista Oi

  • O futebol segue como o mais potente vetor simbólico da política brasileira — transversal a regimes e governos. A história mostra que vitórias e derrotas não definem votos por si, mas moldam climas de opinião. Em 2026, a ofensiva digital do PL com IA e o discurso de Lula ilustram caminhos opostos para capitalizar o momento: personalização versus institucionalização.
  • Para Neymar, o cálculo é delicado: associar-se explicitamente a um polo pode reforçar nichos, mas reduzir alcance em um país onde a seleção ainda mobiliza uma audiência plural. Para os candidatos, a tentação de “batizar” a alegria do torcedor é enorme — e o risco de backlash, real, se a performance em campo frustrar.
  • Em última instância, a Copa reafirma um traço do país: o gramado como espelho da nação. Em 1958 e 1962, projetou-se autoestima; em 1970, serviu ao ufanismo; em 1994 e 2002, ancorou travessias econômicas e políticas. Em 2026, tende a ser palco e termômetro — não oráculo.

Encerramento

A história confirma: no Brasil, Copa e eleição caminham juntas desde 1994. O hexa, se vier, terá muitos pretendentes à autoria política. Mas, como sempre, quem dará a palavra final serão os 90 minutos — e a capacidade de governos, partidos e candidatos de ler o espírito de um país que, ao celebrar seus craques, também discute quem somos. Até lá, a bola seguirá dividida entre o campo e a narrativa.

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Política

Eleição e briga de Alcolumbre com Lula explicam aprovação de ‘pautas-bomba’ no Senado

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Em uma quarta-feira (10) de derrotas para o Palácio do Planalto, o Senado aprovou uma série de “pautas-bomba” com potencial de impacto fiscal superior a R$ 200 bilhões, segundo estimativas discutidas pela equipe econômica. No centro do terremoto político estão a disputa pela reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) ao comando do Senado e o desgaste na relação do senador com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — combinação que, somada à decisão do presidente da Casa de avançar com votações sem acordo com o governo, explica a ofensiva que agora ameaça o Orçamento em ano eleitoral.

O que foi aprovado

O principal item aprovado foi o projeto de renegociação das dívidas de produtores rurais, relatado por Renan Calheiros (MDB-AL). A proposta, avaliada por técnicos como de alto risco fiscal, pode gerar impacto de cerca de R$ 140 bilhões ao longo dos próximos dez anos. A matéria avançou mesmo após Alcolumbre, dias antes, sinalizar em plenário — após reunião com o ministro da Fazenda, Dario Durigan — que não colocaria projetos dessa natureza em votação a pedido do governo.

Virada de rota no Senado

Na sessão desta quarta (10), Alcolumbre adotou posição oposta. Sem acordo com o Planalto, pautou a renegociação rural e deu sequência à deliberação. Para líderes governistas, o gesto teve endereço certo: agradar a senadores de diferentes bancadas, em busca de apoio para sua candidatura à reeleição, e enviar um recado a Lula de que deseja abrir um canal direto para “aparar arestas” políticas.

Crise entre o presidente do Senado e o Planalto

A crise entre o presidente do Senado e o Planalto vem de longe. Eles estão rompidos desde que o Senado, sob a condução de Alcolumbre, rejeitou o nome de Jorge Messias para a vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal, episódio que aprofundou o fosso entre as cúpulas dos Poderes e alimentou desconfianças mútuas.

Aposta do governo na Câmara

Diante do revés no Senado, o governo deslocou sua estratégia para a Câmara dos Deputados, ancorado na relação do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), com o Planalto. Ao contrário de Alcolumbre, Motta vive fase de excelente interlocução com Lula e é visto como o principal fiador para conter o avanço das medidas no curto prazo ou, ao menos, moderar seu alcance fiscal por meio de ajustes no texto.

O cálculo político

A leitura no Congresso é de que “pautas-bomba” costumam ganhar tração em períodos eleitorais por atenderem a demandas setoriais, regionais e corporativas, em troca de capital político para lideranças que almejam ampliar influência. No caso de Alcolumbre, a combinação entre necessidade de consolidar apoios e o embate com o Planalto criou o ambiente para a ruptura de compromissos informais firmados com a equipe econômica.

O que são “pautas-bomba”

No jargão de Brasília, “pautas-bomba” são projetos que elevam despesas obrigatórias ou ampliam renúncias de receita sem contrapartidas equivalentes, pressionando o resultado fiscal. Em anos eleitorais, tendem a ressurgir com força, pois oferecem ganhos imediatos a segmentos organizados, enquanto seus custos se acumulam ao longo dos anos. A renegociação ampla de dívidas, reajustes sem fonte de custeio e anistias tributárias são exemplos clássicos dessa categoria.

Análise

A movimentação no Senado expõe dois vetores que se retroalimentam: a disputa pela presidência da Casa e a deterioração da ponte política entre Alcolumbre e o Planalto. Na prática, o líder do Senado usou a agenda econômica como instrumento de poder — tanto para agregar apoios internos quanto para forçar um realinhamento com Lula. Para o governo, a janela de contenção agora depende da Câmara e de sua capacidade de reescrever projetos que, da forma como saíram do Senado, ampliam o passivo fiscal em um patamar incompatível com o compromisso de responsabilidade orçamentária.

Próximos passos

Os textos aprovados no Senado seguem para a Câmara, onde a base governista tentará calibrar escopo e impacto das medidas. O governo trabalha para reatar canais com o Senado e, paralelamente, para construir na Câmara uma barreira a novas derrotas — cenário que, se mal manejado, pode impor ao Executivo uma conta bilionária em pleno ano eleitoral e reordenar as forças no topo do Legislativo.

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Política

A mais política das Copas do Mundo – O Assunto #1737

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Abertura

A Copa do Mundo que começa nesta quinta-feira, 11 de junho de 2026, promete entrar para a história não só pelo ineditismo esportivo — 48 seleções em campo, sedes espalhadas por Estados Unidos, Canadá e México — mas também pela carga política e econômica que a cerca. Enquanto milhões lotam estádios ao longo de pouco mais de um mês, o torneio convive com duas barreiras centrais: o bolso do torcedor, diante dos ingressos mais caros já praticados, e as restrições de entrada nos EUA, que, sob a administração Donald Trump, impõem dificuldades adicionais a fãs e até a delegações. No campo, o Mundial pode marcar o crepúsculo da era Messi–Cristiano Ronaldo, enquanto o Brasil tenta romper a desconfiança para voltar ao topo.

O torneio da virada: formato, calendário e sedes

  • Inédito a três mãos: EUA (11 cidades), México (3) e Canadá (2) dividem a organização — a primeira Copa com três países-sede.
  • Expansão histórica: 48 seleções, em 12 grupos de quatro; avançam aos mata-matas os dois melhores de cada grupo e os oito melhores terceiros, inaugurando um novo “round of 32”. Serão 104 partidas ao longo de 39 dias.
  • Abertura e encerramento: o Mundial vai de 11 de junho a 19 de julho de 2026, retomando o calendário tradicional de verão no Hemisfério Norte.
  • Contexto de bastidores: a candidatura norte-americana (United 2026) venceu o Marrocos no Congresso da Fifa em 2018; o México se torna o primeiro país a sediar uma Copa pela terceira vez; o Canadá estreia como anfitrião.

Política em campo: vistos, fronteiras e a Fifa de Infantino

No episódio O Assunto #1737, Natuza Nery ouve, dos EUA, o jornalista Guga Chacra sobre o clima político: em ano de Copa sediada majoritariamente por um país de fronteiras historicamente rígidas, relatos de entraves de visto e maior escrutínio migratório atingem torcedores e podem alcançar delegações. A meu ver, esse é o ponto que transforma 2026 na Copa mais politizada desde o início do século: a experiência do torcedor passa a ser também um capítulo de política pública.

Há ainda a política do futebol. Gianni Infantino, presidente da Fifa, construiu, desde 2016, uma agenda de expansão da Copa — uma decisão com nítido cálculo geopolítico (mais países contemplados, mais votos, mais mercados). O relacionamento com Washington não é de hoje: em 2018, Infantino visitou a Casa Branca, em gesto simbólico logo após o apoio à candidatura tripla de 2026. Esse entrelaçamento entre poder esportivo e poder político ajuda a explicar tanto a escolha do modelo de Copa quanto a disposição da Fifa em aceitar preços altos e uma logística complexa em troca de alcance e receita recordes.

O peso do bolso: os ingressos mais caros

A promessa de “Copa para todos” esbarra na realidade do preço. A política de preços e o uso de modelos dinâmicos de bilhetagem tornaram os tíquetes os mais caros de todos os tempos, segundo levantamento setorial e reportagens recentes. Some-se a isso o custo de transporte e hospedagem no eixo EUA–Canadá–México — e tem-se um Mundial que, do ponto de vista do torcedor comum, é menos acessível do que edições anteriores. Na prática, há risco reputacional para a Fifa ao afastar parte do público que faz a festa nas arquibancadas.

Dentro de campo: fim de uma era e novos protagonistas

Dois dos maiores da história, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, chegam a 2026 no limite do ciclo. Mesmo que um deles ainda pise no gramado, a percepção de que vivemos o capítulo final dessa dupla eleva a tensão esportiva do torneio. É o momento em que as novas lideranças — algumas já consolidadas na Europa e na América do Sul — têm a chance de assumir o protagonismo.

Brasil: entre a cobrança e a reconstrução

A Seleção inicia o Mundial sob o comando de Dorival Júnior, técnico efetivado em janeiro de 2024, após meses de incerteza e idas e vindas em torno do nome de Carlo Ancelotti. A correção é necessária: embora Ancelotti tenha sido cotado e tratado como plano da CBF, foi Dorival quem assumiu o ciclo e conduziu o processo de reconstrução. No episódio, André Rizek avalia o quadro competitivo: tradicionais potências chegam fortes, e há espaço para surpresas — um cenário em que o Brasil, penta desde 2002, precisa combinar solidez tática, elenco saudável e nervos no lugar para voltar a ser protagonista. Minha leitura é que a Seleção tem material humano para brigar, mas depende de consistência defensiva e de um encaixe fino no ataque para superar rivais com projetos mais estáveis desde 2018.

Infantino, Trump e o tabuleiro global do futebol

O argumento político que cerca 2026 não se esgota nos vistos. A expansão para 48 seleções amplia a pegada diplomática do evento: mais vagas para confederações fora da Europa e da América do Sul, maior capilaridade de mercados de TV e patrocínio e uma aposta da Fifa no soft power do futebol como ativo econômico. A relação de Infantino com lideranças políticas — inclusive com a Casa Branca à época da confirmação da sede — ajuda a entender por que 2026 é, acima de tudo, um projeto global de influência.

Por que esta é a Copa mais política

  • Fronteiras e acesso: checagens de imigração e complexidade de viagem entre três países afetam torcidas e, potencialmente, equipes.
  • Economia do espetáculo: preços recordes comprimem a participação do torcedor tradicional e reforçam a lógica de maximização de receita.
  • Geopolítica da bola: a Fifa usa a expansão para ampliar seu raio de influência e consolidar alianças — um jogo de poder que extrapola o gramado.

Encerramento

A Copa de 2026 será lembrada como um divisor de águas: maior, mais longa, mais cara — e mais atravessada pela política. Entre o adeus a uma era de superastros e a busca brasileira pelo hexa, o Mundial nos EUA, Canadá e México testa os limites do futebol como festa popular em tempos de fronteiras rígidas e de um esporte cada vez mais globalizado e comercial. O que veremos a partir desta quinta-feira dirá se, apesar de tudo, a bola ainda consegue falar mais alto.

Serviço — O Assunto #1737

  • Apresentação: Natuza Nery.
  • Convidados: Guga Chacra (Globonews, TV Globo, CBN e O Globo) e André Rizek (editor-chefe e apresentador do Seleção SporTV e Fechamento SporTV).
  • Produção: Luiz Felipe Silva, Sarah Resende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stéphanie Nascimento e Guilherme Gama.
  • O Assunto é o podcast diário do g1, disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube, com mais de 168 milhões de downloads somados nas plataformas e 14,2 milhões de visualizações no YouTube desde agosto de 2019.
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