Política
Na Alemanha, Lula nega turbulência em cenário eleitoral e diz estar ‘tranquilo’ para disputar quarto mandato
Berlim (Alemanha) — Em coletiva nesta segunda-feira (20), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) negou que viva um período de turbulência no cenário eleitoral e afirmou estar “tranquilo” para disputar um quarto mandato em 2026. Ao comentar política internacional, Lula criticou o que chamou de ingerência dos Estados Unidos em países como Venezuela e Cuba e defendeu o respeito à autodeterminação dos povos e à integridade territorial das nações. As declarações ocorrem em meio ao acirramento das pesquisas: levantamento da Quaest divulgado na quarta-feira (15) aponta empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno.
Declarações na Alemanha
Questionado sobre o ambiente eleitoral, Lula descartou instabilidade e reforçou confiança no projeto político que lidera. No campo externo, elevou o tom contra intervenções de potências em assuntos domésticos de outros países. “Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política de como sociedade de um país tem que se organizar ou não. Cadê a autodeterminação dos povos? Direitos humanos? Cadê o respeito à Carta da ONU?”, disse. Em seguida, completou: “Eu quero que os Estados Unidos sejam do jeito que querem ser, Alemanha se organize do jeito que queira se organizar. Quero que o Brasil se organize do jeito que a sociedade brasileira queira se organizar. Ninguém pode se meter na nossa organização”.
Mais cedo, Lula já havia direcionado críticas aos Estados Unidos e ao presidente norte-americano, Donald Trump, e pediu apoio da Alemanha nesse debate, alinhando o discurso à defesa de soberania e não intervenção — bandeiras recorrentes da diplomacia brasileira desde a redemocratização.
Cenário eleitoral: empate técnico com Flávio Bolsonaro
A pesquisa Quaest (15/4) indica Flávio Bolsonaro com 42% das intenções de voto contra 40% de Lula em um eventual segundo turno em 2026 — quadro de empate técnico, conforme a própria consultoria. É a primeira vez, segundo a série da Quaest, que o senador do PL supera numericamente o presidente. O movimento vem após sucessivas reduções da vantagem do petista: de dez pontos em dezembro, para sete em janeiro e cinco em fevereiro, até chegar à diferença de dois pontos em abril.
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Flávio é senador pelo Rio de Janeiro e figura de destaque no campo conservador. Segundo sua biografia pública (Wikipedia), é filiado ao PL e atua nacionalmente como herdeiro político do bolsonarismo, capitalizando a base organizada que elegeu seu pai em 2018.
Contexto e leitura política
Na avaliação da Revista Oi, Lula buscou, na Alemanha, duas mensagens complementares: internamente, transmitir normalidade e confiança diante do enrijecimento das pesquisas; externamente, reforçar uma marca de política externa — soberania, Carta da ONU e autodeterminação — que dialoga com parceiros europeus e do Sul Global. A combinação tenta manter a pauta do governo em terreno programático (economia, relações internacionais) e reduzir o espaço para que a disputa eleitoral de 2026 capture o noticiário desde já.
Do lado oposicionista, o avanço de Flávio Bolsonaro nas sondagens sugere consolidação do eleitorado conservador e competição real pelo centro — faixa que costuma definir eleições presidenciais no Brasil. O empate técnico indica um cenário aberto e propenso a oscilações ao sabor de economia, segurança pública e fato político.
Histórico e a disputa por um quarto mandato
Lula já governou o país por dois mandatos (2003–2010), voltou ao Planalto em 2023 após recuperar seus direitos políticos com a anulação de condenações no âmbito da Lava Jato em 2021, conforme decisões do STF e o histórico registrado por organismos internacionais como o Comitê de Direitos Humanos da ONU. Agora, mira um quarto mandato em 2026, aposta que exigirá coesão de base, resultados econômicos e narrativa clara para além da comparação com o ciclo bolsonarista.
O que observar a seguir
- Próximas pesquisas: confirmarão a ultrapassagem numérica de Flávio ou indicarão reação do presidente?
- Agenda externa: o discurso de soberania e não intervenção tende a seguir como eixo da política externa brasileira e pode render apoios ou atritos no tabuleiro internacional.
- Indicadores domésticos: desempenho da economia e entregas do governo terão peso direto na consolidação de preferências do eleitorado.
Conclusão
Ao negar turbulência e enfatizar serenidade, Lula tenta blindar o governo enquanto reafirma um posicionamento clássico da diplomacia brasileira. O empate técnico com Flávio Bolsonaro, no entanto, sinaliza uma corrida competitiva desde cedo. Para a eleição de 2026, o equilíbrio entre resultados internos e narrativa internacional pode ser determinante — tanto para manter a confiança proclamada pelo presidente quanto para testar a força renovada da oposição.
Política
Representante dos EUA é convocada a dar explicações ao governo brasileiro sobre pedido para que delegado da PF deixe EUA
Revista Oi
Brasília — O Itamaraty convocou nesta terça-feira (21) a encarregada de Negócios interina da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Kimberly Kelly, para prestar esclarecimentos sobre o pedido do governo de Donald Trump para que o delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA (ICE), deixe o país. A reunião, confirmada por fontes da diplomacia brasileira, ocorre em meio à escalada de tensão após a detenção, em abril, do ex-deputado Alexandre Ramagem na Flórida e à acusação, feita por autoridades americanas, de tentativa de contornar pedidos formais de extradição com fins de “perseguições políticas”.
O que motivou a convocação
- Na segunda-feira (20), o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo americano anunciou que solicitou a saída de Marcelo Ivo de Carvalho dos Estados Unidos.
- O delegado da PF estava lotado em Miami desde março de 2023, em missão oficial junto ao ICE, com atribuições de identificação e prisão de foragidos da Justiça brasileira em território americano. Em março de 2025, sua permanência foi prorrogada até agosto deste ano.
- Em publicação nas redes, o governo dos EUA, sem citar nomes, afirmou que uma autoridade brasileira tentou “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas” no Brasil.
O encontro no Itamaraty
Segundo relatos obtidos pela GloboNews, a reunião no Ministério das Relações Exteriores durou cerca de uma hora. Kimberly Kelly foi recebida por Christiano Figueiroa, diretor do Departamento de América do Norte do MRE. O Itamaraty buscou detalhes sobre a fundamentação do pedido americano e os impactos práticos sobre a cooperação policial bilateral.
Reações do governo brasileiro
- Em viagem à Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo “irá entender o que aconteceu para decidir como reagir” e mencionou a possibilidade de aplicar o princípio da reciprocidade, segundo o qual um país responde a medidas de outro com ação equivalente.
- O chanceler Mauro Vieira destacou que Marcelo Ivo de Carvalho trabalhava formalmente em conjunto com autoridades americanas em Miami e que “todos sabiam” dessa função, sinalizando desconforto com a decisão de Washington.
O caso Ramagem no pano de fundo
- Alexandre Ramagem foi detido pelo ICE em 13 de abril, em Orlando, por questões migratórias, e liberado dois dias depois. Ao sair, divulgou vídeo agradecendo à cúpula do governo Trump pela soltura e disse que a liberação foi administrativa, sem procedimento judicial ou fiança.
- A movimentação dos EUA contra o delegado brasileiro ocorre após esse episódio e no contexto da acusação pública de tentativa de burlar procedimentos formais de cooperação jurídica — tema sensível na relação bilateral.
Quem é Marcelo Ivo de Carvalho — e quem o substitui
- Delegado da PF, Marcelo Ivo de Carvalho ocupa desde 2023 a função de oficial de ligação em Miami, dedicada ao intercâmbio com o ICE.
- Antes mesmo do anúncio americano, a PF já havia nomeado a delegada Tatiana Alves Torres para substituí-lo como oficial de ligação junto ao ICE. A designação foi publicada no Diário Oficial da União em 17 de março. Delegada desde 2002, formada em Direito pela UFMG, Tatiana tem especializações em Ciências Penais e Segurança Pública e histórico de atuação em crimes ambientais, financeiros, crime organizado e migração, além de passagens por cursos internacionais (National Defense University, em 2022, e Interpol, em 2008).
Contexto: o que é o ICE e o princípio da reciprocidade
- O ICE é a agência federal do Departamento de Segurança Interna dos EUA encarregada de fazer cumprir a legislação migratória e conduzir investigações criminais em âmbito transnacional. Atua por meio de duas grandes frentes: Investigação de Segurança Interna (HSI) e Operações de Fiscalização e Remoção (ERO). Em cooperações bilaterais, liaisons de polícias estrangeiras, como a PF, costumam trabalhar junto a suas unidades para localizar e deter foragidos.
- O princípio da reciprocidade é prática tradicional da diplomacia: diante de um ato considerado hostil ou injustificado, o país afetado pode adotar medida equivalente — por exemplo, restringir prerrogativas de diplomatas ou ajustar postos de cooperação. A adoção desse mecanismo, contudo, costuma ser calibrada para evitar prejuízos a áreas sensíveis, como a colaboração policial e judiciária.
O que está em jogo
- Cooperação policial: O afastamento de um oficial de ligação pode afetar, no curto prazo, a coordenação cotidiana de operações contra foragidos e organizações criminosas transnacionais. A nomeação prévia da substituta tende a mitigar disrupções operacionais.
- Sinal político: A convocação da encarregada de Negócios é um gesto diplomático clássico de descontentamento. Ao pedir explicações públicas e ventilar a reciprocidade, Brasília indica que enxerga o episódio não como um ajuste técnico, mas como um ruído político na parceria.
- Disputa de narrativas: Enquanto Washington fala em tentativa de burlar pedidos de extradição e “perseguições políticas”, o governo brasileiro sustenta que a atuação do delegado era conhecida e integrada às autoridades americanas. O desfecho dependerá da troca de notas e de eventuais esclarecimentos factuais sobre procedimentos seguidos no caso.
Análise da Revista Oi
A decisão de convocar a representante dos EUA é proporcional à gravidade da acusação pública feita por Washington e tenta resguardar a imagem da cooperação Brasil–EUA no pós-Ramagem. Na prática, a substituição já publicada no DOU reduz o impacto imediato sobre operações com o ICE, mas a retórica sobre “perseguição política” eleva o custo político para ambos os lados. Se prevalecer a reciprocidade, há risco de escalada diplomática que não interessa às áreas de segurança e justiça de nenhum dos países. O caminho mais racional, a esta altura, é a transparência sobre procedimentos adotados e a preservação dos canais técnicos, sem que o contencioso se torne um impasse de alto perfil.
Próximos passos
- O Itamaraty deve aguardar as respostas formais da Embaixada dos EUA e do Departamento de Estado.
- A PF, com a transição para Tatiana Alves Torres em Miami, tende a manter a cooperação operacional.
- Eventuais contramedidas brasileiras, caso adotadas, serão calibradas após a avaliação política e técnica das explicações americanas.
Política
Explosão de negócios da família Trump abre caminho para presidentes dos EUA lucrarem com o cargo
Revista Oi
A rápida expansão dos negócios da família Trump, com foco em projetos no exterior e em criptoativos durante o segundo mandato, reacendeu um debate central na política americana: onde termina o interesse público e começa o interesse privado de um presidente em exercício. Enquanto acordos internacionais, investimentos em setores sensíveis e receitas bilionárias com moedas digitais elevaram substancialmente a fortuna do clã, especialistas em ética alertam para conflitos de interesse “sem precedentes” e seu impacto sobre a democracia dos Estados Unidos.
Expansão internacional e cripto: uma virada de chave
Segundo reportagens e registros citados por veículos como The New York Times, Wall Street Journal e Associated Press (AP), a Trump Organization — sob comando de Eric Trump e Donald Trump Jr. — acelerou a internacionalização de seus negócios após um primeiro mandato em que evitou fechar novos acordos fora dos EUA. Em pouco mais de um ano no segundo mandato, já foram anunciados oito empreendimentos no exterior. Paralelamente, a família ingressou com força no ecossistema de criptoativos, criando novas fontes de receita por meio de plataformas, tokens e moedas “meme”.
A entrada nas criptomoedas elevou receitas a patamares bilionários. A World Liberty, empresa ligada à família, vendeu “tokens de governança” que concedem direito a voto em decisões da plataforma sem transferir controle societário; apenas no ano passado, esses tokens arrecadaram US$ 2 bilhões. Entre os compradores está o empresário Justin Sun, que, por ser estrangeiro, não pode doar a políticos nos EUA — ele gastou US$ 75 milhões nos tokens entre a eleição e a posse, e mais tarde adquiriu US$ 200 milhões em moedas “meme” com a imagem de Trump, o que lhe garantiu acesso a eventos exclusivos.
Negócios com potenciais impactos de política externa
Os novos acordos levantam questionamentos sobre eventuais benefícios concedidos a parceiros estratégicos. No Catar, um clube de golfe e casas de luxo com a marca Trump estão sendo erguidos com participação de uma empresa estatal. No Vietnã, o governo desapropriou terras de agricultores para viabilizar um resort, em um acordo aprovado em cerimônia oficial com a presença do vice-primeiro-ministro, segundo o NYT. E na Arábia Saudita, um empreendimento chamado “Trump Plaza” à beira do Mar Vermelho é tocado por uma companhia próxima à família real. Em janeiro, a Trump Organization anunciou um terceiro acerto no país em menos de um ano — mansões, hotel e campo de golfe próximos a Riad — em colaboração com empresa pertencente ao fundo soberano saudita.
Não há comprovação direta de que esses negócios tenham alterado decisões de Washington em favor desses países. Ainda assim, os resultados práticos chamam atenção: o Catar obteve acesso a tecnologia americana, o Vietnã conquistou redução de tarifas e a Arábia Saudita recebeu aviões de combate — enquanto a Trump Organization arrecadou dezenas de milhões de dólares em taxas. A empresa sustenta que não faz negócios com governos estrangeiros, descrevendo a operação no Catar como “colaboração” e afirmando que a parceira saudita é privada; não comentou casos específicos que envolvem fundos soberanos.
Cripto: vendas bilionárias, chips e um perdão presidencial
Outro ponto sensível surgiu com a World Liberty Financial. Pouco antes da posse, quase metade da empresa foi vendida por US$ 500 milhões a uma companhia controlada por integrante da família real dos Emirados Árabes Unidos. Outro fundo estatal dos Emirados investiu US$ 2 bilhões na Binance usando uma moeda digital criada pela World Liberty. Com isso, a empresa vinculada à família Trump aplicou os recursos em ativos considerados seguros e obteve dezenas de milhões de dólares em juros.
Na sequência, o governo Trump revogou uma regra do governo Biden e permitiu a venda de chips avançados aos Emirados. Mais tarde, Changpeng Zhao, fundador da Binance que havia se declarado culpado por falhas de compliance na plataforma, recebeu perdão presidencial. O advogado de Zhao negou qualquer relação entre os negócios e o perdão. A Casa Branca disse que Zhao foi punido injustamente em meio ao que classificou como “guerra da administração Biden contra as criptomoedas”. A World Liberty também negou conflito de interesse, afirmando que o acordo com os Emirados não teve ligação com a decisão sobre chips.
A monetização da imagem: moedas “meme”, clubes e produtos
A estratégia comercial avança ainda pela venda direta ao público. Moedas “meme” com o rosto de Trump arrecadaram US$ 320 milhões em quatro meses, segundo a Chainalysis, superando em mais que o dobro a receita de quatro anos do antigo hotel Trump International, em Washington, D.C., no primeiro mandato. Compradores dessas moedas podem permanecer anônimos, diferentemente de doações eleitorais, o que cria novas rotas de influência sem transparência tradicional.
No mercado físico, Donald Trump Jr. lançou um clube privado em Georgetown, Washington, batizado “Executive Branch”, com cotas de até US$ 500 mil para membros fundadores. O apelo ali é a proximidade com o centro do poder. Paralelamente, o presidente tem promovido itens como Bíblias “God Bless the USA” (US$ 59,99), tênis “Never Surrender” (US$ 399) e guitarras autografadas que chegam a US$ 11.500.
Investimentos em setores sensíveis e busca por contratos públicos
Eric e Donald Jr. também investiram em empresas que disputam contratos com o governo federal — entre elas, uma fabricante de drones armados que busca vender ao Pentágono e a aliados dos EUA no Golfo, além de uma produtora de motores de foguetes, uma fornecedora de chips de inteligência artificial e uma empresa de análise de dados. Registros oficiais citados por veículos de imprensa mostram que esses negócios já movimentam dezenas de milhões de dólares em recursos públicos. Questionado após o acordo dos drones, Eric Trump respondeu: “Tenho um orgulho enorme de investir em empresas nas quais acredito.” Um representante de Donald Jr. afirmou que ele não “interage” com o governo sobre essas empresas e que esperar que ele deixe de prover a própria família é “um padrão risível e ridículo”.
Mercado, risco e volatilidade
A família também surfou a alta de ativos digitais. A American Bitcoin abriu capital em setembro, o que avaliou a fatia de Donald Jr. e Eric em cerca de US$ 1 bilhão na época — meses depois de o presidente anunciar a criação de uma reserva nacional de bitcoin, medida que impulsionou a cotação. A volatilidade do setor, porém, cobrou seu preço: tanto as ações da American Bitcoin quanto o valor das moedas “meme” teriam caído cerca de 90% desde o pico. Mesmo assim, anúncios de novos eventos exclusivos com grandes detentores das moedas chegaram a provocar repiques temporários.
Defesas, reações e a opinião pública
Questionada, a Casa Branca afirma que Trump age “de maneira ética” e que críticas são “mal informadas ou maliciosas”. A porta-voz Anna Kelly diz que os ativos do presidente estão sob administração dos filhos e que ele “não tem envolvimento” nos negócios da família. A Trump Organization declara cumprir “integralmente as leis de ética e de conflitos de interesse” e rejeita a “insinuação” de que a política enriqueceu a família.
Ainda assim, a percepção pública parece estar em mutação. Em pesquisa do Pew Research Center de janeiro, 42% dos eleitores republicanos disseram confiar que Trump age eticamente, abaixo dos 55% do início do segundo mandato. Em fala ao The New York Times, o presidente sugeriu que “ninguém se importava” com conflitos de interesse, citando a exceção legal que isenta o chefe do Executivo de restrições aplicáveis a outros funcionários.
Contexto histórico e a cláusula dos emolumentos
Historicamente, presidentes buscaram evitar a aparência de ganho privado associado ao cargo. Harry Truman não permitiu o uso comercial de seu nome nem após deixar a Casa Branca; Richard Nixon chegou a mandar instalar escutas no telefone do irmão por temer favorecimentos; George W. Bush se desfez de todas as ações antes de tomar posse. Outros casos cercaram famílias presidenciais: Hunter Biden integrou o conselho de uma empresa ucraniana enquanto Joe Biden era vice; a Fundação Clinton recebeu doações estrangeiras após o término do mandato de Bill Clinton; o irmão de Jimmy Carter explorou o sobrenome para vender cerveja. Nenhum desses exemplos, porém, envolveu um presidente em exercício liderando uma expansão internacional e digital de negócios privados nessa escala.
No pano de fundo jurídico, a Foreign Emoluments Clause da Constituição dos EUA proíbe que ocupantes de cargos federais aceitem presentes, vantagens ou títulos de governos estrangeiros sem consentimento do Congresso. A aplicação ao presidente e o alcance prático desse dispositivo seguem objeto de debate acadêmico e tiveram pouca análise judicial substantiva. Ainda assim, o princípio nela contido — blindar o poder público de influências externas — está no centro das preocupações descritas por historiadores como Julian Zelizer (Princeton), que vê “nenhuma linha” separando decisões políticas e interesses da família Trump, e Timothy Naftali (Columbia), para quem “quaisquer restrições do primeiro mandato parecem ter desaparecido”.
Dinheiro conta — e muda o jogo
A Forbes estima a fortuna de Donald Trump em US$ 6,3 bilhões — 60% a mais do que antes de ele retornar à Presidência —, um salto notável após anos de dificuldades em alguns ativos tradicionais da marca. O hotel Trump International em Washington nunca foi lucrativo antes de ser vendido em 2022; redes voltadas à classe média fecharam no primeiro mandato; e prédios residenciais retiraram o nome “Trump” das fachadas para não afastar compradores. Hoje, em Washington e em setores diretamente expostos a decisões governamentais, a marca recupera valor.
Opinião
Com base nos fatos e relatos apresentados por veículos de referência, a linha que separa o público do privado na Presidência parece ter se tornado mais tênue. A combinação de negócios externos com participação de entes estatais, receitas não transparentes via cripto e investimentos da família em empresas que buscam contratos com o próprio governo configura, no mínimo, um cenário de riscos éticos reais. Mesmo quando não há prova de contrapartida direta, a aparência de conflito já é corrosiva — sobretudo quando envolvida em decisões sensíveis de política externa e tecnológica. O precedente que se desenha, se não for enfrentado por regras mais claras e fiscalização mais firme, tende a institucionalizar um modelo em que o cargo máximo do país pode se tornar uma alavanca de monetização privada. Isso não é apenas um debate moral: é um teste de estresse para a confiança pública em instituições democráticas.
O que observar a seguir
- Transparência: divulgação de contratos, investidores e estruturas societárias dos novos empreendimentos.
- Supervisão: posição do Congresso sobre salvaguardas e aplicação de normas de ética, inclusive quanto a negócios com entes estatais estrangeiros.
- Mercado: a resiliência — ou não — das fontes de receita em cripto diante da volatilidade e de maior escrutínio regulatório.
- Política externa: sinais de alinhamento entre decisões estratégicas dos EUA e interesses comerciais privados de parceiros estrangeiros ligados aos negócios da família.
Em um país cuja Constituição buscou, desde a origem, blindar o poder político de influências econômicas externas, o momento exige luz forte sobre o que é negócio e o que é governo — e, sobretudo, onde nenhum dos dois deveria se encontrar.
Política
Oscar Schmidt queria ser presidente, tentou vaga no Senado e foi Secretário de Esporte
São Paulo — Oscar Schmidt, maior ídolo do basquete brasileiro, que morreu nesta sexta-feira (17), aos 68 anos, também teve uma passagem marcante pela vida pública. No fim dos anos 1990, o ex-jogador tentou transformar a popularidade das quadras em capital político: foi secretário municipal de Esportes de São Paulo (1997–1998) e disputou o Senado por São Paulo em 1998, quando ficou perto da vitória contra Eduardo Suplicy (PT).
Da quadra à política
- Em entrevista ao SporTV, Oscar contou que sua candidatura ao Senado em 1998 fazia parte de um projeto maior: chegar à Presidência da República. Após mais de uma década atuando no basquete europeu, ele afirmou ter retornado ao Brasil com esse objetivo.
- Antes da corrida eleitoral, assumiu a Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação de São Paulo entre 1997 e 1998, na gestão do então prefeito Celso Pitta. Convidado diretamente pelo chefe do Executivo, deixou o cargo para concorrer ao Senado.
A disputa ao Senado em 1998
- Na eleição, Eduardo Suplicy foi eleito com 6,71 milhões de votos; Oscar somou 5,75 milhões, resultado que o deixou muito próximo de conquistar a vaga. Anos depois, o próprio ex-atleta avaliou que a derrota acabou sendo positiva.
- A performance nas urnas mostrou força de recall e capilaridade de um ídolo esportivo, mas também os limites de uma candidatura recém-estruturada diante de um adversário com trajetória política consolidada.
Gestão pública em São Paulo
- À frente da Secretaria de Esportes da capital, Oscar concentrou esforços na promoção de políticas voltadas ao esporte e ao lazer, em uma transição direta do ambiente esportivo de alto rendimento para a gestão pública municipal.
- A permanência no cargo foi curta — deixada para viabilizar a campanha ao Senado —, mas marcou sua primeira experiência formal na administração pública.
Contexto e legado
- Ícone internacional do basquete, Oscar foi incluído no FIBA Hall of Fame (2010) e no Naismith Memorial Basketball Hall of Fame (2013). Nascido em Natal (RN), consolidou a carreira entre Brasil, Itália e Espanha e tornou-se sinônimo de protagonismo esportivo para o público brasileiro.
- Sua morte, em São Paulo, aos 68 anos, foi confirmada nesta sexta (17). A relevância esportiva e a tentativa de ingressar na vida pública ajudam a explicar sua dimensão como figura pública multifacetada — entre o carisma das quadras e a ambição de influenciar políticas de esporte em escala nacional.
Análise — o que fica da aposta política de Oscar
- Com base nos dados eleitorais de 1998 e no relato do próprio ex-jogador, a trajetória política de Oscar evidencia um fenômeno recorrente no país: atletas de grande apelo popular que encontram terreno fértil para candidaturas majoritárias. Seu desempenho competitivo contra um nome estabelecido como Suplicy indica que a força simbólica do “Mão Santa” quase transbordou para as urnas. Ao mesmo tempo, a ausência de uma base partidária robusta e de tempo de maturação política pesou contra a vitória, como mostram os números finais.
Fontes e verificação
- G1: “Oscar Schmidt, maior ídolo do basquete brasileiro, morre em SP aos 68 anos” (17/04/2026).
- Wikipedia: verbete “Oscar Schmidt” (confirmação de perfil e marcos da carreira esportiva).
- Entrevista ao SporTV citada por Oscar sobre seu projeto político de 1998.
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