Negocios
Agrishow tem queda de 22% no volume de negócios em meio a guerra no Oriente Médio e altas taxas de juros
Ribeirão Preto (SP) — A Agrishow 2026, maior feira de tecnologia agrícola do país, encerrou-se com R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios, uma retração de 22% em relação a 2025, quando o evento movimentou R$ 14,6 bilhões, segundo a organização. O desempenho acompanha a queda de 20% nas vendas de máquinas e implementos agrícolas no primeiro trimestre, de acordo com a Abimaq. Apesar do recuo nos negócios, o público foi mantido: 197 mil visitantes, o mesmo patamar do ano anterior.
Números e contexto
- Volume prospectado: R$ 11,4 bilhões, R$ 3,2 bilhões abaixo de 2025.
- Queda setorial: vendas de máquinas e implementos recuaram 20% no 1º trimestre, segundo a Abimaq.
- Público estável: 197 mil pessoas circularam pela feira.
- Próxima edição: prevista para 26 a 30 de abril de 2027.
Organizadores e empresas atribuem o desempenho mais fraco à combinação de juros elevados que restringem o crédito, baixa nos preços de commodities, aumento da inadimplência no campo e reflexos da guerra no Oriente Médio, que encarecem custos de produção e consomem o capital de giro do produtor, reduzindo o ímpeto de investimento.
Estratégias para destravar demanda
Mesmo com o ambiente mais duro, fabricantes e cooperativas buscaram contornar a aversão a risco com pacotes comerciais agressivos. O diretor de marketing da Massey Ferguson, Breno Cavalcanti, relatou fluxo intenso no estande da marca, em contraponto ao recuo consolidado do setor no ano. A fabricante apostou em condições especiais de consórcio, descontos, redução de taxas e benefícios pós-venda.
“Trouxemos uma série de campanhas ao longo de abril que vão se estender até maio (…). Um determinado produto que o cliente comprava, por exemplo, ganhava as três primeiras revisões”, disse.
A Coopercitrus reforçou a presença de produtores com logística dedicada.
“Nós organizamos ônibus, vans, para trazer produtores de regiões mais distantes, porque a gente quer que ele aproveite a oportunidade”, afirmou o CEO Fernando Degobbi.
Segundo ele, a estratégia resultou em movimentação recorde no estande — espaço que responde por até 20% do faturamento anual da cooperativa. Linhas de financiamento especiais, produtos a pronta entrega e operações de barter (troca da safra futura por insumos) estiveram no cardápio.
Resultados díspares por nicho
Nem todos sentiram a retração. A Tritucap, de Sertãozinho (SP), retornou à feira após sete anos com tecnologia para erradicação sustentável de lavouras de café e reportou vendas três vezes acima do previsto, citando o bom momento do café. Equipamentos para citricultura, fruticultura, pastagens e trato florestal também tiveram boa aceitação, e a empresa já avalia ampliar a área de exposição em 2027.
Na Herbicat, o presidente Luís Pio classificou esta como a melhor Agrishow da história da companhia, mesmo em cenário desafiador. Segundo ele, foram registrados mais de 300 contatos qualificados, com expectativa de gerar incremento de 10% a 20% nas vendas no pós-evento graças ao interesse por soluções como pulverização inteligente para plantas novas.
Marca, relacionamento e experiência
Com área de exposição equivalente a mais de 50 campos de futebol, a Agrishow também movimenta ações de marca. Segundo a BP One, especializada em live marketing, somente ativações e promoções em estandes que fecharam contrato com a empresa somaram R$ 5 milhões.
“O estande é uma plataforma de relacionamento. É o espaço onde a marca se posiciona, traduz a solução, a inovação e se tornou ferramenta estratégica de geração de valor”, disse Tânia Noguchi, diretora de estratégia e gestão da Live Retail Marketing da BP One.
Entre os clientes, a Valtra contou com 3,5 mil m² e a Baldan, com 4 mil m².
Palanque político em ano eleitoral
Pela força do agro, a feira voltou a ser parada quase obrigatória para quem busca proximidade com o setor na corrida presidencial de 2026. Na abertura, no domingo (26), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) anunciou uma linha de crédito de R$ 10 bilhões para compra de equipamentos agrícolas. Nos dias seguintes, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Flávio Bolsonaro (PL) visitaram a feira e fizeram críticas ao governo federal, em especial às políticas para o campo. Romeu Zema (Novo-MG) reiterou críticas ao STF e respondeu a declarações do ministro Gilmar Mendes. Ronaldo Caiado (PSD) questionou políticos que se aproximam do agro apenas em período eleitoral, enquanto Aldo Rebelo (DC) defendeu um “emendão” para destravar obras paralisadas por decisões do STF e outras instâncias.
Opinião da Revista Oi
Os números de 2026 indicam menos apetite para fechar negócios de maior tíquete no curto prazo — coerente com crédito caro e preços de commodities em baixa —, mas não ausência de interesse. O público estável e o tráfego intenso em estandes relatado por empresas sugerem que o produtor segue pesquisando tecnologia e condições, adiando decisões até enxergar melhor previsibilidade de custos e financiamento. Chamam atenção os bons resultados de nichos como café, citros e soluções de eficiência (pulverização inteligente, trato florestal), o que indica que investimentos com retorno claro de produtividade e redução de custos seguem avançando mesmo no ciclo de contração. A linha de R$ 10 bilhões anunciada pelo governo pode atenuar a travessia, mas seu impacto dependerá da efetiva disponibilidade de crédito a taxas competitivas e da evolução do quadro geopolítico que pressiona insumos.
Encerramento
A Agrishow 2026 termina com recuo relevante nas intenções de negócios e mensagens mistas do chão de feira: pressão macro e geopolítica de um lado; criatividade comercial e resiliência setorial de outro. Até abril de 2027, quando a feira volta a Ribeirão Preto, o setor testará se a combinação de crédito mais acessível, melhora de preços agrícolas e estabilização externa será suficiente para reverter a tendência de queda nas máquinas e equipamentos.
Negocios
Durigan diz que ‘gargalo’ da economia são os juros altos: ‘quem é menos culpado é o Ministério da Fazenda’
Resumo
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta semana que os juros elevados são o principal “gargalo” da economia brasileira, por travarem investimentos privados e pressionarem a dívida pública. Com a Selic a 14,25% ao ano — a mais alta do mundo em termos reais entre 40 países, segundo ranking da MoneYou —, Durigan defendeu “harmonizar” a política fiscal com a monetária e prometeu ajuste das contas por meio de corte de gastos e revisão de benefícios fiscais. Ele rejeitou que medidas do governo, como expansão de crédito subsidiado, tenham impedido cortes mais agressivos de juros pelo Banco Central (BC).
Juros altos, dívida cara e investimento em compasso de espera
- A dívida pública bruta atingiu 81,4% do PIB, de acordo com dados recentes, em um contexto de déficit de R$ 56,1 bilhões nas contas do governo central em maio. Como grande parte do endividamento é corrigida pela taxa básica de juros, cada ponto percentual a mais encarece o serviço da dívida, reduzindo o espaço orçamentário para investimentos e políticas públicas.
- A Selic está em 14,25% ao ano após decisão do Copom em junho. Em termos reais (descontada a inflação projetada para 12 meses), o Brasil lidera o ranking de juros entre 40 nações, segundo a MoneYou, o que desestimula o crédito e alonga a recuperação do investimento privado.
O que diz o governo e o Banco Central
- Durigan sustenta que o problema central hoje são os juros, e que o Ministério da Fazenda “é quem menos tem culpa” por esse quadro. Para ele, é preciso “harmonizar” a estratégia de receitas e despesas com a condução da política monetária.
- O Banco Central, por sua vez, ressalta que a Selic é uma taxa de curto prazo e que sua atuação é reativa às condições da economia e às expectativas de inflação. Em 2023, o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que os juros no Brasil são altos porque a dívida é alta — e não o contrário —, relacionando o nível de endividamento ao custo do dinheiro.
Mercado vê descompasso fiscal-monetário
- Economistas apontam que ainda falta a harmonização entre a política de gastos e a definição de juros. O diagnóstico recorrente é de “remadores em direções opostas”: estímulos e expansão de despesas de um lado, e aperto monetário de outro, o que dificulta domar a inflação e, por consequência, reduz o espaço para cortes de juros.
- O mercado financeiro é crítico à combinação de aumento de impostos com avanço de gastos. Analistas pedem ênfase maior em redução de despesas e revisão de renúncias para que a queda dos juros seja sustentável e a dívida pare de subir.
Crédito subsidiado no ano eleitoral
- Questionado se linhas de crédito com taxas favorecidas — como para caminhões, ônibus, reforma de imóveis, táxis e o Desenrola 2.0 — em ano eleitoral travaram uma redução mais acelerada da Selic, Durigan negou. Para ele, essas iniciativas não impediram cortes adicionais.
- Entre analistas, persiste a avaliação de que políticas de crédito direcionado aumentam a demanda agregada e podem pressionar a política monetária, sobretudo quando as expectativas fiscais estão sob escrutínio.
Ajuste fiscal: como o governo pretende agir
- Durigan afirmou que o governo implementará, nos próximos anos, o ajuste necessário para levar as contas “de volta ao azul”, com contenção de gastos e redução de benefícios fiscais. Ele defendeu tributar mais os mais ricos, revisar programas sociais e cortar subsídios.
- Sobre a desindexação do salário mínimo em benefícios previdenciários e a desvinculação de gastos obrigatórios em saúde e educação da variação da receita — propostas citadas por analistas —, disse que é um debate para o próximo governo.
- O ministro classificou o arcabouço fiscal aprovado em 2023 como “viável e sustentável”, apesar da compressão prevista dos gastos livres, ponto que suscita receio no mercado sobre risco de paralisia da máquina pública se não houver recomposição estrutural.
Análise Revista Oi
- O diagnóstico de que os juros altos são um gargalo é preciso no curto prazo: eles encarecem a dívida e inibem investimento. Mas a trajetória dos juros depende diretamente da credibilidade fiscal. Sem uma âncora clara — com redução efetiva de despesas obrigatórias e de renúncias, e não apenas aumento de arrecadação —, o BC tende a ser mais cauteloso.
- A promessa de ajuste com corte de gastos, revisão de benefícios fiscais e foco nos mais ricos aponta na direção esperada pelo mercado. O desafio é de execução: calibrar estímulos (como crédito subsidiado) para não conflitar com a política monetária e cumprir o arcabouço sem asfixiar despesas discricionárias essenciais.
- Se o governo avançar em medidas estruturais que estabilizem a dívida em patamar mais baixo, cria-se espaço para a queda consistente dos juros reais. Sem isso, a inércia fiscal mantém a Selic pressionada e a dívida acima de 80% do PIB tende a alimentar um ciclo de alta de prêmios e crescimento fraco.
O que observar
- A implementação concreta do ajuste (cortes de gastos e revisão de renúncias).
- A dinâmica da dívida/PIB e o resultado primário nos próximos trimestres.
- As próximas decisões do Copom e a evolução das expectativas de inflação.
- O balanço entre novos estímulos de crédito e o compromisso com o arcabouço fiscal.
Fontes
Declarações do ministro da Fazenda Dario Durigan nesta semana; dados recentes sobre déficit e dívida (G1); decisões do Copom e Selic (G1); ranking de juros reais da MoneYou; avaliações de economistas e do Banco Central sobre o descompasso entre política fiscal e monetária (G1) e declarações de Roberto Campos Neto em 2023.
Negocios
Petróleo: saiba como a crise no Estreito de Ormuz beneficia os negócios do Brasil
Brasil aparece como porto seguro para o óleo do Golfo em meio à incerteza
A escalada das tensões no Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo — inaugurou uma fase de incerteza no mercado global e abriu uma janela de oportunidade para o Brasil. Com produção offshore no Atlântico, fora das rotas ameaçadas do Oriente Médio, o país se firmou como alternativa confiável de fornecimento. Nono maior produtor mundial, responde por aproximadamente 4% da oferta global e produz em torno de 4 milhões de barris por dia, patamar comparável ao dos Emirados Árabes Unidos. Esse reposicionamento já repercute no comércio exterior: a China redirecionou maciçamente suas compras, elevando sua fatia nas exportações brasileiras de petróleo bruto de cerca de 40% para quase 70%, enquanto produtores tentam capitalizar um prêmio de risco mais alto no Golfo.
Uma rota fora das tensões do Golfo
- O estreitamento da oferta via Ormuz aumentou prêmios de frete, seguros e risco geopolítico associados a cargas originadas no Golfo Pérsico. Nesse contexto, o óleo brasileiro, majoritariamente extraído em águas ultraprofundas da Bacia de Santos e adjacências, ganhou competitividade relativa por oferecer estabilidade logística.
- A geografia conta a favor: o embarque no Atlântico Sul evita gargalos em pontos de estrangulamento do comércio marítimo. Para tradings e refinarias, isso se traduz em menor risco operacional e previsibilidade de entrega.
China puxa a demanda por óleo brasileiro
- Em meio à guerra no Irã e às ameaças recorrentes ao Estreito, Pequim ampliou de forma acelerada as compras do Brasil. “A China representava cerca de 40% das exportações brasileiras de petróleo bruto antes da crise no Estreito. Agora, está se aproximando de 70%”, afirma o especialista Adel El Gammal.
- O movimento foi facilitado por relações já existentes. As estatais chinesas CNPC e CNOOC participam de projetos no país e aprofundaram vínculos com a Petrobras e parceiros privados, encurtando o ciclo entre oferta e demanda.
Pré-sal e margem equatorial: vantagens e apostas
- A força estrutural do Brasil está nas reservas do pré-sal, entre as mais promissoras do mundo nas últimas duas décadas. Extraído em águas ultraprofundas, o óleo é competitivo por sua qualidade e produtividade dos poços, atributos valorizados em um mercado que busca petróleo de refino relativamente mais simples.
- Ao mesmo tempo, o governo sinalizou apoio à abertura de uma nova fronteira: a margem equatorial — faixa geológica que vai da costa amazônica brasileira até a Guiana. “É um novo Eldorado. Toda essa área é rica em petróleo”, avalia Samuele Furfari, professor de Geopolítica da Energia na Universidade Livre de Bruxelas. A aposta mira diversificação de portfólio e ampliação de volumes à medida que a demanda global se realinha.
Os gargalos: refino curto e baixa elasticidade no curto prazo
- O avanço da produção esbarra em limitações conhecidas. “O aumento da capacidade produtiva deve ser acompanhado do aumento da capacidade de refino. E, no Brasil, essa é uma de suas limitações; está longe de ser suficiente”, observa Adel El Gammal. O país exporta grande parcela do óleo cru e importa derivados de maior valor agregado, o que reduz o ganho interno na cadeia.
- Há ainda a baixa elasticidade da oferta no curto prazo. A indústria opera em horizontes longos: ampliar produção relevante demanda investimentos bilionários e projetos que levam anos. “O que decidimos hoje terá efeitos daqui a dez anos”, resume Furfari. Em outras palavras, o bônus de preço presente não se converte automaticamente em mais barris amanhã sem planejamento, licenciamento e logística.
Política, transição energética e a equação Lula-Petrobras
- O governo Lula tenta equilibrar a ambição climática com a realidade de um Estado produtor. A Petrobras segue expandindo no offshore e Brasília autorizou a retomada da perfuração no campo de Urucu, no Amazonas, após mais de uma década de paralisação — sinal de que, apesar do discurso de transição, a política energética incorporará o petróleo como alavanca fiscal e industrial no médio prazo.
- Há também os limites da política doméstica: em um sistema federativo e fragmentado, o Planalto negocia com entes regionais, oposição e interesses econômicos consolidados, o que restringe a velocidade de mudanças estruturais.
Um mercado mais disperso — e mais competitivo
- Analistas apontam uma reconfiguração do tabuleiro energético. “Não é mais um mercado hegemônico, onde uma minoria dita as regras; é um mercado disperso, onde cada produtor encontra seu lugar”, diz Furfari. A saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep, em abril, é lida como símbolo dessa inflexão e do enfraquecimento da coordenação clássica de oferta.
- A boa maré para o Brasil, porém, tem contrapesos. A concorrência avança: Guiana, Angola, Moçambique, Azerbaijão e Canadá buscam ampliar presença. Com novos atores, o prêmio de escassez que hoje favorece o óleo brasileiro tende a se diluir. E o petróleo segue um mercado cíclico, altamente sensível a choques geopolíticos — de Ormuz ao Atlântico.
Opinião: janela tática exige execução estratégica
- Na avaliação da Revista Oi, o Brasil vive uma rara conjunção de preço, demanda e geopolítica. Mas capturar valor sustentável requer:
- Destravar investimentos em refino e dutos para reduzir a dependência de importação de derivados;
- Acelerar, com rigor ambiental e previsibilidade regulatória, a exploração na margem equatorial;
- Ampliar a infraestrutura portuária e de escoamento do pré-sal;
- Articular a política industrial para transformar parte do boom de exportações em encadeamentos produtivos no país.
- Se fizer isso, o país consolida sua posição como fornecedor confiável em um mercado mais fragmentado — e converte a volatilidade de Ormuz em ganhos permanentes de competitividade. Se não, corre o risco de ver os benefícios se dissiparem quando a maré geopolítica mudar.
Encerramento
A crise no Estreito de Ormuz reposicionou o Brasil no radar dos grandes consumidores. Com 4 milhões de barris por dia, reservas robustas no pré-sal e novas fronteiras no horizonte, o país tem lastro para crescer. O desafio é transformar a vantagem circunstancial em política de Estado — ampliando refino, infraestrutura e governança — antes que a concorrência e o ciclo do petróleo virem a página.
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