Política
TSE rejeita recurso e confirma cassação de Silvia Waiãpi, ex-deputada indígena apoiadora de Bolsonaro
Em decisão unânime nesta quinta-feira (30), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou o recurso da ex-deputada federal Sílvia Nobre Lopes (PL-AP), conhecida como Silvia Waiãpi, e confirmou a cassação do mandato por uso irregular de verbas públicas de campanha. O colegiado manteve o entendimento do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) de que a então candidata utilizou R$ 9 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para pagar um procedimento estético de harmonização facial em Macapá. A Corte superior determinou a nulidade dos votos obtidos por Waiãpi, a retotalização dos resultados e o recálculo dos quocientes eleitoral e partidário no estado.
Decisão unânime e fundamentos
- Relator do caso no TSE, o ministro André Mendonça afirmou que ficou comprovado o uso de recursos do FEFC para custear despesa pessoal — a harmonização facial no valor de R$ 9 mil. Segundo o voto, houve ainda a emissão de nota fiscal para conferir aparência de legalidade a um gasto inexistente de campanha, o que afronta a moralidade administrativa e a transparência do processo eleitoral.
- O plenário constatou que a falsificação da nota fiscal visou encobrir a despesa irregular, reforçando a gravidade da conduta. A unanimidade da decisão reforça a robustez do conjunto probatório analisado pela Justiça Eleitoral.
Como o caso chegou ao TSE
- A representação inicial apontou que recursos públicos destinados à campanha de 2022 foram usados para pagar o procedimento em consultório odontológico na capital amapaense.
- Em 19 de junho de 2024, o TRE-AP cassou o mandato de Waiãpi por gasto ilícito de campanha. A Procuradoria-Geral da República (PGR) propôs a representação e, no TSE, o vice-procurador-geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, sustentou oralmente que documentos e testemunhos comprovaram o uso indevido do FEFC.
- O TSE confirmou integralmente a decisão regional, encerrando a discussão em instância eleitoral superior.
Consequências práticas no Amapá
- Com a nulidade dos votos de Silvia Waiãpi e a retotalização, a Justiça Eleitoral fará novos cálculos dos quocientes eleitoral e partidário. Essa revisão pode alterar a composição da bancada do Amapá na Câmara dos Deputados e a distribuição de vagas entre os partidos, inclusive o PL, legenda pela qual a ex-parlamentar se elegeu em 2022.
- A definição de quem assumirá a cadeira será feita após a retotalização oficial dos votos pelo TRE-AP, seguindo os critérios legais de distribuição de vagas.
Quem é Silvia Waiãpi
- Sílvia Nobre Lopes, conhecida como Silvia Waiãpi, é política do Amapá, eleita deputada federal em 2022 pelo PL. Indígena e aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro, exerceu o mandato na 57ª Legislatura. Segundo a Wikipedia, seu período na Câmara abrangeu 2023–2025, interrompido pela decisão da Justiça Eleitoral.
Contexto e mensagem institucional
- O caso destaca a vigilância da Justiça Eleitoral sobre o uso do FEFC, fundo público destinado exclusivamente a despesas de campanha. O desvio de finalidade — especialmente para custear despesa de natureza pessoal — é considerado violação grave, sujeita a sanções como cassação, nulidade de votos e eventual responsabilização em outras esferas.
Opinião da Revista Oi
A decisão do TSE é um recado claro à classe política: a integridade das contas de campanha e a transparência no uso de recursos públicos são inegociáveis. A unanimidade do julgamento, ancorada em documentação e na constatação de falsificação de nota fiscal, confere solidez ao veredito e reforça a coerência do sistema de controle eleitoral entre TREs e o TSE. Para o eleitor, a retotalização corrige a distorção causada pelo uso ilícito de recursos e preserva a legitimidade do resultado das urnas no Amapá.
Fontes e verificação
- Decisões e votos do TSE; acórdão que confirmou a cassação e determinou a nulidade dos votos e a retotalização.
- Julgamento do TRE-AP de 19/06/2024 que cassou o mandato por uso de R$ 9 mil do FEFC em procedimento estético.
- Sustentação do vice-procurador-geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, e informações públicas sobre o caso.
- Verificação biográfica: Silvia Waiãpi (Wikipedia).
Política
Líder do PL abraça Messias em sabatina, é criticado e se explica: ‘Princípio de educação’
Sinal de civilidade ou ruído político?
O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), virou alvo de críticas de apoiadores bolsonaristas após abraçar o advogado-geral da União, Jorge Messias, durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, nesta quarta-feira (29), em Brasília. Para conter a reação, o parlamentar publicou um vídeo nas redes sociais no qual afirma que o gesto foi apenas “princípio de educação” e reitera que seu partido votará contra a indicação de Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Gesto vira munição nas redes
- No vídeo, Sóstenes rechaça qualquer interpretação de apoio à indicação. “Ser educado não pode ser confundido com posicionamento político. O PL no Senado já fechou questão e todos os nossos senadores votarão contra a indicação de Jorge Messias para o STF”, disse.
- O deputado também relatou que já esteve com o AGU em outras ocasiões para tratar de interesses do Rio de Janeiro e da bancada do PL: “Na convivência política a gente se conhece. Já fui recebido pelo AGU algumas vezes para tratar de assuntos de interesses do meu estado, de interesses da bancada do PL, e o cumprimento é um princípio de educação.”
- Diante da pressão de sua base, Sóstenes reforçou o recado: “Fiquem tranquilos, toda a bancada do PL votará contra a indicação de Jorge Messias para o STF.”
PL mantém oposição e tenta conter desgaste
- A manifestação pública do líder do PL busca isolar o gesto de cortesia do campo da disputa política, preservando a estratégia do partido de se colocar frontalmente contra a indicação do governo.
- O próprio deputado faz a ponte entre pragmatismo e oposição: reconhece a necessidade de interlocução institucional com o AGU sobre pautas regionais e partidárias, mas demarca voto contrário no Senado, onde a votação será secreta.
O que está em jogo na sabatina
- Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jorge Messias, atual advogado-geral da União, é submetido à sabatina na CCJ antes de seu nome ir a plenário. Trata-se de uma etapa decisiva do rito constitucional para compor o STF.
- A avaliação no Congresso é de que o placar tende a ser apertado. Aliados do governo projetam cerca de 45 votos favoráveis, mas, por ser votação secreta, o cenário pode mudar até o momento da decisão.
Contexto e próximos passos
- A sabatina na CCJ mede a temperatura política e a capacidade de articulação do indicado e do governo. Após o parecer da comissão, o nome segue para o plenário do Senado, onde precisa de maioria simples dos presentes para aprovação.
- Se aprovado, Messias assume a cadeira no Supremo; em caso de rejeição, caberá ao presidente indicar outro nome.
Análise | Civilidade sob pressão e o custo simbólico dos gestos
- O episódio expõe a tensão permanente entre a liturgia institucional e a polarização. Em ambientes altamente mobilizados, um gesto protocolar — um cumprimento, um abraço — vira insumo para testes de lealdade nas redes. Sóstenes tenta reduzir o custo político do gesto reafirmando a oposição cerrada do PL à indicação.
- Para o governo, a controvérsia tem efeito colateral: reforça a narrativa de que a normalidade republicana (diálogo entre poderes e civilidade) deve conviver com o dissenso. Se a votação for apertada, cada sinal público — inclusive de urbanidade — ganha peso simbólico. A depender do desfecho, o Planalto pode registrar uma vitória relevante em um Senado dividido; já a oposição trabalhará para traduzir o placar, mesmo que minoritário, como demonstração de força e coesão.
Encerramento
A declaração de Sóstenes Cavalcante tenta encerrar um ruído típico da política em tempos de hiperexposição: “educação” não é sinônimo de “apoio”. Enquanto o PL reafirma voto contrário e o governo busca consolidar apoios, a sabatina de Jorge Messias na CCJ e a votação secreta no plenário do Senado deverão calibrar o grau de governabilidade e a temperatura da disputa em torno do STF nas próximas semanas.
Política
Escala 6×1: CNI entrega manifesto a Hugo Motta contra mudanças na jornada de trabalho
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) entregou nesta terça-feira (28) um manifesto ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), expressando preocupação com o avanço de propostas que visam acabar com a escala 6×1 na legislação trabalhista. O movimento ocorre às vésperas da instalação, nesta quarta (29), da comissão especial que analisará o tema. Segundo a CNI, a eventual redução da jornada pode elevar os custos das empresas com empregados formais em até R$ 267 bilhões por ano.
Manifesto da indústria
Assinado pela CNI em conjunto com 27 federações estaduais, 98 associações setoriais e 741 sindicatos industriais, o documento afirma que, embora o debate sobre jornada e descanso seja legítimo, as propostas em análise “podem provocar impactos severos sobre a economia, os investimentos e a criação de empregos formais”. A entidade sustenta ainda que “mudanças estruturais na legislação trabalhista precisam ser construídas com base em evidências, diálogo técnico e responsabilidade econômica”.
Comissão especial e relatoria
Hugo Motta anunciou nesta terça (28) os deputados que comandarão a comissão especial: Alencar Santana (PT-SP) será o presidente do colegiado, e Léo Prates (Republicanos-BA), o relator. O grupo terá 38 integrantes. Caberá ao relator consolidar uma proposta a partir de dois textos já apresentados pela deputada Érika Hilton (Psol-SP) e pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Prates, porém, tem liberdade para construir um texto independente, desde que obtenha maioria na comissão.
Segundo Motta, a intenção é votar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) em plenário ainda em maio, em homenagem ao Dia do Trabalhador, celebrado em 1º de maio. O presidente da Câmara frisou que pretende ouvir “todo o setor produtivo” antes da finalização do texto. “Toda e qualquer sugestão ao texto é válida e a comissão vai debater. Não vai ser a vontade de um partido ou de um grupo que prevalecerá. Será a vontade média da Casa”, afirmou, antes de receber o documento da CNI.
Três frentes em tramitação
Além das duas sugestões que embasam o trabalho da comissão, há outras iniciativas em curso. Duas semanas atrás, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encaminhou ao Congresso um projeto de lei que trata do mesmo tema, com o objetivo central de abolir o modelo de seis dias de trabalho para um de descanso e instituir um novo patamar de jornada semanal e de repouso. Na prática, Câmara e Executivo conduzem, em paralelo, três textos sobre o assunto.
O que está em jogo
A escala 6×1 é hoje uma referência de organização de jornada em diversos setores e está prevista na legislação trabalhista. O debate no Congresso envolve não apenas o desenho de um novo modelo — com mais dias de descanso e eventual redução de horas semanais —, mas também os efeitos de transição para empresas e trabalhadores, incluindo custos adicionais, impacto sobre produtividade, emprego formal e negociações coletivas.
Os números apresentados pela CNI dimensionam o tamanho da preocupação do setor industrial. Um aumento potencial de até R$ 267 bilhões por ano em custos de mão de obra, caso se confirme, teria efeitos diretos sobre a competitividade, margens de investimento e decisões de contratação. Por outro lado, defensores de mudanças na escala argumentam que jornadas mais curtas e mais descanso tendem a reduzir afastamentos, melhorar a saúde do trabalhador e elevar a produtividade por hora, temas que deverão ser explorados na comissão.
Sinais políticos
A decisão de Hugo Motta — presidente da Câmara e filiado ao Republicanos — de acelerar a votação para maio é um recado político claro de que a Casa quer protagonismo no tema. Ao mesmo tempo em que promete ouvir o setor produtivo, Motta mantém um cronograma apertado, o que sugere um esforço para construir uma “vontade média” entre pressões da indústria, pautas do governo e propostas da esquerda que já tramitam.
Na avaliação da Revista Oi, o debate tende a ser um teste de equilíbrio entre competitividade e proteção social. A sinalização da CNI — com uma frente ampla de entidades — eleva o custo político de avanços que desconsiderem impactos econômicos. Já a disposição do comando da Câmara de votar rapidamente, associando o calendário ao 1º de Maio, indica que a disputa de narrativa também estará em jogo.
Próximos passos
A comissão especial será instalada nesta quarta (29), quando deve ser definido o plano de trabalho do relator Léo Prates, com audiências para ouvir representantes de trabalhadores, empresas, especialistas e governo. A depender do consenso em torno de um texto, a proposta poderá chegar ao plenário ainda em maio. Até lá, a pressão da indústria e a estratégia do governo no Congresso — com seu próprio projeto — serão determinantes para o formato final das mudanças na jornada e no descanso semanal.
Fontes
Informações públicas da Câmara dos Deputados e da CNI; anúncios oficiais repercutidos pela imprensa; perfil público de Hugo Motta e composição partidária dos deputados citados.
Política
Penduricalhos: juízes pedem ao STF mais prazo para aplicar novas regras de pagamentos fora do teto
Entidades que representam a magistratura e membros do Ministério Público pediram ao Supremo Tribunal Federal (STF), nesta segunda-feira (27), a ampliação do prazo para implementação das novas regras que limitam os chamados “penduricalhos” — verbas adicionais que permitem remunerações acima do teto do funcionalismo. A solicitação, liderada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), pede a suspensão da eficácia da decisão e um período de adaptação de, no mínimo, 30 dias a partir do julgamento de eventuais embargos de declaração.
O pedido das entidades
No documento protocolado, a AMB afirma atuar em nome de outras associações de juízes e membros do Ministério Público e sustenta que os tribunais enfrentam dificuldades para dar “fiel cumprimento” ao entendimento fixado pelo STF. As entidades destacam a urgência da análise porque diversos tribunais estão em fase final de elaboração das folhas de pagamento.
Além do prazo adicional, o grupo solicita que uma eventual suspensão dos efeitos da decisão não alcance a Parcela de Valorização por Tempo de Antiguidade na Carreira (PVTAC). Segundo o texto, excluir a PVTAC mitigaria impactos na estrutura remuneratória da magistratura.
As entidades também relatam que a suspensão do pagamento de verbas retroativas — os chamados passivos — já provocou “redução significativa” nos rendimentos, sobretudo de aposentados e pensionistas, para quem esses valores seriam as únicas verbas extraordinárias. Por isso, pedem que, caso o STF suspenda os efeitos da decisão até o julgamento dos embargos, seja autorizada a implementação imediata da PVTAC.
O grupo solicita ainda que a análise seja feita monocraticamente, com posterior referendo no plenário virtual do STF, que, se necessário, poderia ser convocado de forma extraordinária.
O que decidiu o STF em março
No julgamento realizado em março deste ano, o Supremo determinou que a soma das vantagens não pode ultrapassar 70% do valor do salário. Esse teto foi dividido em duas parcelas de 35%, referentes a dois tipos de verbas. Na prática, a soma dos dois blocos de vantagens permite o pagamento de até R$ 32.456,32 a mais no contracheque mensal, elevando a remuneração total a até R$ 78.822,32 quando o servidor já recebe o teto do funcionalismo.
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) se mobilizou para regulamentar as novas regras após a decisão do STF, em um movimento que busca uniformizar critérios de cálculo e aplicação nos tribunais.
Impactos e foco na PVTAC
Para as entidades, o cenário atual configura “fato extraordinário” que justificaria a concessão de novo prazo de adaptação. O ponto sensível é a PVTAC: as associações defendem que a parcela, vinculada ao tempo de serviço, fique fora dos efeitos de uma eventual suspensão, de modo a reduzir sobressaltos na remuneração — especialmente para quem já está aposentado ou é pensionista.
Próximos passos
O pedido pede que o prazo de adaptação conte a partir do julgamento dos embargos de declaração — recurso destinado a esclarecer pontos da decisão. Até a última atualização desta reportagem, o Supremo ainda não havia analisado a solicitação.
Análise
À luz dos argumentos apresentados, o pleito por um prazo adicional parece tecnicamente legítimo diante da complexidade operacional de folhas de pagamento e da necessidade de padronização após a decisão do STF. Ao mesmo tempo, preservar o alcance do parâmetro definido pela Corte — que limita os penduricalhos a 70% do salário, em dois blocos de 35% — é crucial para dar previsibilidade, transparência e controle ao gasto público. Uma solução de transição, com cronograma claro e comunicação uniforme via CNJ, tende a reduzir ruídos sem esvaziar o mérito do que foi decidido em março.
Até que o STF se manifeste, o impasse mantém tribunais em compasso de espera e pressiona o calendário de pagamentos. A decisão sobre o pedido de urgência e o tratamento da PVTAC serão sinais importantes sobre como a Corte pretende calibrar a aplicação prática das novas regras.
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